21 de abril de 2026
Editorial

Nossos podres poderes

Caetano Veloso, com uma precisão quase profética, já entoava: “Enquanto os homens exercem seus podres poderes, morrer e matar de fome, de raiva e de sede, são tantas vezes gestos naturais…”. O que era poesia de protesto sob o sol da Bahia tornou-se o diagnóstico clínico de uma Brasília em metástase. A recente querela entre o Judiciário e o Legislativo não é apenas um ruído institucional, é a pá de cal que faltava sobre o tripé que sustenta o que um dia chamamos de República.

Não é um mero atrito institucional. É o sintoma da falência de um sistema. Ao fechar o tripé com um Executivo focado exclusivamente em sua própria sobrevivência eleitoral, os Três Poderes abandonaram o disfarce de harmonia e independência para encenar um teatro do absurdo, onde o povo é mero espectador de sua própria desgraça.

O problema não é o dissenso entre os Poderes — isso é próprio da democracia. O problema é quando o dissenso descamba para a desconfiança estrutural. Quando decisões deixam de ser interpretadas como institucionais e passam a ser lidas como táticas ou ameaças. Quando a política invade o Direito, e o Direito responde com política.

O Poder Judiciário. Ah, o Judiciário… a instituição que deveria ser a guardiã última da Constituição e do Estado de Direito transformou-se na principal ameaça a ambos. O Supremo Tribunal Federal está podre. Não é exagero retórico, é diagnóstico! A própria ministra Cármen Lúcia, em momento de rara franqueza, admitiu: “a crise de confiabilidade no Poder Judiciário é séria, grave e precisa ser reconhecida”. Quando o diagnóstico vem de dentro, já não se trata de narrativa, é sintoma.

Decisões monocráticas que atropelam o Congresso, prisões sem processo, censura prévia disfarçada de combate à desinformação, ativismo judicial escancarado e corporativismo doentio que protege seus membros com unhas e dentes enquanto o resto do país sangra.

Enquanto os ministros do STF se comportam como aristocratas intocáveis, o povo assiste, pacientemente, à ineficiência crônica, aos salários estratosféricos, aos penduricalhos, aos auxílios-moradia de quem já mora em mansões, ao nepotismo velado e ao espetáculo de vaidades que virou o plenário.

E o Poder Legislativo? O Legislativo, por sua vez, oscila entre a omissão conveniente e o confronto calculado. Em vez de atuar como legislador, frequentemente alimenta o embate, seja por cálculo político, seja por incapacidade de articulação mais ampla. Os presidentes da Câmara e do Senado agem de acordo com o que quer o Executivo, independente da vontade popular. Suas pautas são feitas à seu bel prazer, conforme o acordo que sempre significam cargos e verbas. O resultado é um Congresso que reage mais do que lidera — e, quando lidera, o faz sob a lógica da pressão e quando reage, muitas vezes o faz por corporativismo próprio, não por defesa da República. O resultado é o mesmo: paralisia ou conivência.

Assim, no meio desse jogo, a população assiste a decisões contraditórias, disputas públicas e declarações atravessadas. A roupa suja institucional já não é lavada em casa — está no varal, exposta ao sol e ao desgaste. E o pior: começa a parecer normal.

Falta liderança confiável em qualquer um dos Três Poderes. O que resta é a expectativa angustiante de um sopro do caos. Que os Poderes se digladiem, sim. Que se enfrentem. Que se exponham mas, que alguém, em algum lugar, dentro dessa estrutura enferma, acorde para a manutenção mínima da República antes que surja outro imponderável — pior que qualquer Vorcaro que já tenhamos visto.

Democracias não colapsam apenas por golpes abruptos. Muitas vezes, se deterioram lentamente, pela erosão da confiança. Quando cidadãos deixam de acreditar que as instituições funcionam com base em regras claras e passam a enxergá-las como arenas de interesse, o dano é profundo — e difícil de reverter.

Não se trata de defender este ou aquele Poder, este ou aquele governo. Trata-se de algo mais básico: preservar a ideia de República como sistema funcional, e não como campo de batalha permanente. Se os Poderes querem se digladiar, que o façam dentro dos limites institucionais. O que não podem — ou não deveriam — é corroer, em conjunto, o próprio chão sobre o qual se sustentam.

Porque o Brasil não aguenta mais podres poderes exercidos com a naturalidade de quem acha que o país existe para servi-los, e não o contrário. O cheiro de decomposição institucional está forte. E o pior é que ainda há quem insista em chamar isso de “normalidade democrática”.

Valter Bernat

Advogado, analista de TI e editor do site.

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Advogado, analista de TI e editor do site.

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