Morreu, morreu, antes ele do que eu!

Sou uma pessoa que nunca aceitou a ideia de, porque a pessoa morreu, ficou boazinha.

Se era boa, deixará uma boa lembrança. Mas, se foi ruim, ou se eu tinha motivos para não gostar dela, nem por ter morrido vou mudar minha opinião a respeito.

Tive uma convivência dificílima com minha avó paterna durante parte de minha infância e adolescência e, embora ela fosse uma pessoa admirável e forte, era muito difícil na sua convivência.

Filha de pais separados desde que eu tinha 3 anos de idade, ter vivido e convivido com ela dos 9 aos 19 anos foi bem complicado. Para dificultar ainda mais as coisas, ela era surda e, quando os ânimos estavam acirrados, eu dizia A, ela ouvia B, interpretava C e transmitia D, o que me rendia sempre horas tentando desfazer encrencas e mal-entendidos!

Quando ela morreu, depois de uma doença rápida e totalmente inesperada, lembro que seu enterro teve um séquito infindável de pessoas; naqueles tempos em que os enterros eram eventos, paravam o trânsito, tinham licença para “furar” os semáforos, era considerado de extremo mau gosto buzinar numa circunstância dessas, ainda que você tivesse que esperar um farol abrir e fechar meia dúzia de vezes sem sair do lugar.

Lembro que eu ia em um dos veículos atrás do carro funerário e olhava o céu azul, as pessoas se movimentando, e me perguntava o porquê de tudo continuar acontecendo como se nada fosse. Afinal, minha avó havia morrido, ainda que isso só me tivesse libertado.

Sim, porque de alguma maneira eu pensava que ela seria eterna, que eu jamais me livraria dela: meu futuro seria com ela a me atazanar a existência, me intrigar com meu pai, falar mal da minha mãe, dizer que meus primos eram muito melhores do que eu…

Depois de sua morte, quando ia dormir naquela casa enorme em que morávamos, eu acordava no meio da noite, apavorada, aterrorizada pela ideia de que ela tivesse voltado, que continuava viva.

Lembro que eu acendia as luzes e descia até o quarto dela no meio da madrugada, olhava tudo com cuidado, verificava se por um acaso ela estaria por lá, dormindo. Mas não, não estava: ela tinha morrido mesmo, de verdade, não ia voltar mais, nunca mais!!

Essa foi minha primeira vivência com a morte de alguém de quem eu positivamente não gostava, que me infernizava e foi tão, tão incrível – foi como um conto de fadas em que o feitiço se desfaz e a (usualmente) princesa se liberta…

Foi também nessa mesma ocasião que eu descobri que todas as pessoas quando morriam, em especial nessa época, ficavam boazinhas, eram endeusadas e que, se você não estivesse de acordo com a maioria, tinha que ficar de boca fechada e se fazendo de triste…

Acho que escolhi um mau momento para contar essa história, mas não sei exatamente porque ela me veio à mente, quando tantas pessoas realmente queridas estão morrendo, sem se despedir, sem ninguém que as acompanhe até o que se costumava chamar de “última morada”…

À época, tenho a certeza de que, das pessoas da família, eu era certamente a única que, se perguntada, diria claramente que estava aliviada com aquela morte – mais gente certamente estaria, mas jamais abriria a boca para dizê-lo, até porque ela era de impossível convivência para mim, mas digna de muita admiração e respeito.

Hoje, esse meu depoimento cabe como uma luva em relação às milhares de mortes que estão ocorrendo, dado que, quem de fato deveria estar morto, desgraçadamente, continua vivo!

O que posso certamente garantir é que, nem vivo, nem (preferivelmente) morto deixará saudades ou se tornará “bonzinho”!!

E, se fiz eco com algum sentimento seu, guardado a sete chaves, encerrado em seu coração porque você é daquelas pessoas que não externa maus sentimentos e, se por isso, você se sentir mais leve e com menos culpa, já terei atingido meu objetivo!

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