Massificação


Mais uma vez, a exigência de me sentir como todos, de me preocupar na mesma medida, execrar as mesmas coisas, está me pesando…
Todos temos tido muito mais motivos para sentir raiva, nojo e mal estar do que satisfação com o que quer que seja. Mas sentir pode também ser euforia, e pelos motivos mais estapafúrdios… As pessoas parecem querer nos obrigar a ter raiva do que elas têm raiva, ficar feliz com o que as deixa felizes e a festejar com elas todas as datas do calendário: dia das mães, dia dos pais, dia do abraço ou dia da mentira, tudo com o mesmo entusiasmo, a mesma alegria postiça de quem tem planos de vida semelhantes…
Pense bem: no dia das mães, você não está autorizado a não ter mãe, ou a não festejar a que tem porque vocês não se curtem. Se a sua mãe morreu, você com certeza terá colocado alguém a quem chamar de mãe no lugar da falecida porque todos precisam de uma; portanto, nada de ficar triste, o máximo que lhe poderão conceder será levar flores ao túmulo em que ela esteja enterrada. Mas, no almoço do dia das mães, você irá festejar, nem que seja a mãe de outrem: mãe é mãe!…
E, no dia dos pais, tudo acontece como descrevi para as mães, embora estas tenham muito mais importância do que aqueles e isso é tão claro e evidente que nem é necessário explicar, como você mesmo sabe e concorda. De modo que você está convocado a festejar seu pai e tecer-lhe loas.
Você não viu lógica em comemorar a ausência do seu, o fato de ele ter ignorado você desde sempre, de ter abandonado você quando criança.  Mas, é claro que você encontrará muita gente que vai tentar convencê-lo de que o que aconteceu foi um acaso e que seu pai era, de fato, um ótimo sujeito, só um tanto…imaturo, coitado! Mas, é certo que você já o perdoou e poderá levá-lo para almoçar na casa de quem te convidou – para você não ficar sozinho no dia dos pais.
E aí fica difícil, tudo muito difícil; você fica com sua humanidade sub judice: você não tem, não pode ter raiva de sua mãe, ódio de seu pai, não pode não se dar com seus irmãos, não gostar do Natal, não curtir criança, nem cachorro e nem gato, não ter um grande amigo, não gostar de praia, nem de ir ao cinema e não comemorar o dia da mulher ou do orgulho gay…
Mas, você está obrigado a odiar o PT, o PMDB e o PSDB, a gritar “Fora Aécio” ou “Fora Temer”,  execrar todos os políticos, postar suas ideias, viagens e tristezas no Facebook… Não, tristezas não: todos os que têm um Facebook são necessariamente felizes. E, de férias, você está autorizado a escolher entre Fernando de Noronha ou a Disney, mas tudo com glamour, sem direito a mala perdida, reserva furada ou intoxicação por frutos do mar…
Há muito tempo, assisti a um filme maravilhoso e extremamente difícil, de um livro de José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira. Nesse livro todos ficam cegos de uma cegueira branca, sobrando apenas uma pessoa que não ficará cega. E, como mais ninguém vê coisa alguma, perde-se a decência, a vergonha e todos se igualam na luta para satisfazer suas necessidades básicas a qualquer preço… Massificados na dor, no ódio, na alegria, no entusiasmo, estamos ficando assim, também: ninguém mais enxerga além do próprio umbigo, centro do nosso universo: que pobreza…

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