3 de julho de 2022
Colunistas Sylvia Belinky

Modernidades

Fui até um shopping fazer uns exames e, na saída, parei para olhar vitrines: roupas rasgadas, furadas, manchadas e desfiadas, propositalmente tortas, esbeiçadas com pontas de todos os lados, usualmente beges, branco encardido ou pretas, à venda por preços estapafúrdios…

Quando éramos jovens – e esse introito me dá uma sensação de ser “antidiluviana” – comprávamos jeans e o prazer de usá-los era tamanho que viravam… uniforme! Quando iam lavar, deixavam um “vazio” em nossas opções – por isso mesmo, raramente éramos nós a colocá-los para lavar…

Comprar uma roupa que já venha rasgada e manchada é, provavelmente, produto da rapidez com que tudo acontece hoje: não há tempo suficiente para usar a ponto de puir, rasgar, manchar…

Em contrapartida, o gosto por buracos permanentes recrudesceu: nas orelhas, 5, 6 brincos em cada, alargadores de furos no lóbulo para que, ao serem retirados, se transformem em “brincos naturais”, um fio de carne pendurado, balançando…

No nariz, furos nas laterais ou mesmo entre uma narina e outra e, em alguns mais ousados, furos nos lábios ou na língua…

E tatuagens, necessariamente definitivas: jovens tatuados nos mais estranhos lugares com os mais motivos mais bizarros, coloridos ou não, frases inteiras à guisa de “instruções para uso”, e cortes de cabelo à la Neymar, estilo “bosta de vaca” ou “moicanos crespos”, platinados, verdes, eventualmente, cor de rosa…

Há uma incongruência na rapidez das mudanças e o tempo que essa geração deverá durar.

Ainda me causa certa estranheza pensar em um médico qualquer, digamos, um obstetra fazendo um parto estando todo tatuado como um jogador de futebol, ou um juiz num tribunal, um professor de curso de pós-graduação…

Numa expressão antiguinha: “não orna”…

Mas, o provável é que o celular venha a determinar quando devemos “passar por revisão”, o que será feito através dele mesmo, simplesmente baixando um aplicativo.

Não teremos mais contato com o dentista, o médico, que não serão recomendados por um amigo – nada de elos ou vínculos, só um celular de última geração: o do mês passado, já está defasado…

Tradutora do inglês, do francês (juramentada), do italiano e do espanhol. Pelas origens, deveria ser também do russo e do alemão. Sou conciliadora no fórum de Pinheiros há mais de 12 anos e ajudo as pessoas a "falarem a mesma língua", traduzindo o que querem dizer: estranhamente, depois de se separarem ou brigarem, deixam de falar o mesmo idioma... Adoro essa atividade, que me transformou em uma pessoa muito melhor! Curto muito escrever: acho que isso é herança familiar... De resto, para mim, as pessoas sempre valem a pena - só não tenho a menor contemplação com a burrice!

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