
Olá, caríssimos leitores!
Passadas as eleições, é hora de deixar a paixão política de lado por alguns instantes e olhar para uma realidade que não pode ser ignorada: a situação fiscal do Brasil, o crescimento da dívida pública e a conta que ficará para os brasileiros pagarem.
A pergunta que dá título a este editorial é provocativa, mas merece uma reflexão séria: a derrota da direita nas urnas representa apenas uma derrota eleitoral ou poderá se transformar, no futuro, em um livramento para aqueles que não terão de assumir diretamente a responsabilidade por mais quatro anos de decisões econômicas do governo Lula?
O tempo dirá. Mas os números das contas públicas já oferecem motivos para preocupação. A dívida pública cresce e acende o sinal de alerta.
Segundo dados divulgados pelo Banco Central, a Dívida Bruta do Governo Geral encerrou 2022, antes do início do terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, em aproximadamente 71,7% do Produto Interno Bruto (PIB).
Ao final de 2023, o indicador chegou a 73,8% do PIB. Em dezembro de 2024, alcançou 76,3%. No encerramento de 2025, atingiu 78,7%, ultrapassando a marca de R$ 10 trilhões.
E a trajetória continuou preocupante em 2026. Em agosto, segundo os dados mais recentes do Banco Central disponíveis para este editorial, a dívida bruta chegou a 82,9% do PIB, ultrapassando R$ 11,1 trilhões.
Estamos falando de uma elevação de aproximadamente 11,2 pontos percentuais do PIB em relação ao fim de 2022, antes do início do atual governo.
Os números não são opiniões de militantes, nem argumentos fabricados por adversários políticos. São indicadores econômicos que precisam ser examinados por qualquer cidadão preocupado com o futuro do país.
O déficit público: quando a conta não fecha
Outro ponto que merece atenção é o resultado primário das contas públicas, que representa a diferença entre receitas e despesas do governo antes do pagamento dos juros da dívida.
Em 2023, o Governo Central registrou déficit primário de aproximadamente R$ 264,5 bilhões, em um resultado fortemente influenciado por despesas extraordinárias, incluindo o pagamento de precatórios.
Em 2024, o déficit caiu para cerca de R$ 45,4 bilhões. Em 2025, voltou a crescer, alcançando R$ 61,7 bilhões, conforme os números divulgados pelo Tesouro Nacional.
É importante esclarecer que existem diferenças metodológicas entre os resultados do Tesouro Nacional e os do Banco Central, assim como regras que permitem excluir determinadas despesas do cálculo da meta fiscal. Por isso, comparar números exige cuidado e transparência.
Ainda assim, a sucessão de resultados negativos revela um desafio que não pode ser resolvido apenas com discursos otimistas ou recordes de arrecadação: o Estado brasileiro precisa encontrar um equilíbrio sustentável entre aquilo que arrecada e aquilo que gasta.
Aumentar impostos para ampliar receitas pode produzir resultados imediatos, mas não substitui a necessidade de controlar despesas, melhorar a eficiência administrativa e criar condições para que a economia cresça de maneira consistente.
Mais de R$ 1 trilhão em juros: o preço do endividamento
Outro dado impressionante é o custo dos juros da dívida pública. Nos 12 meses encerrados em agosto de 2026, os juros nominais do setor público consolidado somaram aproximadamente R$ 1,18 trilhão, segundo o Banco Central.
É um volume gigantesco de recursos que precisa ser analisado no contexto das contas nacionais. Dinheiro destinado ao pagamento de juros não pode ser confundido automaticamente com dinheiro que poderia ser integralmente transferido para hospitais, escolas ou obras públicas, pois o orçamento envolve obrigações distintas. Ainda assim, o custo elevado do endividamento restringe a margem de manobra fiscal e evidencia a importância de uma política econômica sustentável.
Quando a dívida cresce, os juros permanecem elevados e o governo não consegue estabilizar suas contas, o país pode enfrentar dificuldades para reduzir o custo do crédito, ampliar investimentos e criar um ambiente favorável à geração de empregos e renda.
No fim dessa cadeia, a população sente os efeitos por diferentes caminhos: financiamento mais caro, dificuldades para empreender, pressão sobre o orçamento público e menor espaço para políticas capazes de melhorar a vida dos brasileiros.
A conta não pertence à direita nem à esquerda. Pertence ao Brasil.
Não se trata de desejar o fracasso do país para provar que um adversário político estava errado. Uma crise econômica não escolhe partido, não respeita ideologia e não poupa as famílias que trabalham honestamente para pagar suas contas.
O problema é que governos passam, mas as dívidas permanecem. Presidentes deixam o Palácio do Planalto, enquanto os compromissos financeiros continuam recaindo sobre o Estado brasileiro e sobre as gerações seguintes.
Por isso, o debate sobre o endividamento nacional não deveria ser tratado como uma simples disputa entre lulistas, petistas, bolsonaristas ou conservadores.
Trata-se de uma questão de responsabilidade pública.
Aos defensores do governo Lula, cabe explicar como pretendem estabilizar a dívida, controlar o crescimento das despesas e garantir que o país não comprometa seu futuro para sustentar desequilíbrios presentes.
À oposição, cabe apresentar propostas consistentes, fiscalmente responsáveis e capazes de demonstrar que existe um caminho melhor para o Brasil.
E aos cidadãos cabe acompanhar os números, cobrar transparência e não confundir propaganda política com saúde financeira.
Derrota da direita ou livramento?
É aqui que voltamos à pergunta central deste editorial.
Para quem defendia uma alternativa política ao governo Lula, o resultado das urnas pode ser sentido como uma derrota amarga. Mas será que a história ainda reservará surpresas?
Se o próximo período for marcado por crescimento descontrolado da dívida, juros elevados, dificuldades fiscais e perda de capacidade de investimento, aqueles que hoje comemoram a vitória política terão de responder às mesmas perguntas
que a oposição faria.
Se, ao contrário, o governo conseguir estabilizar as contas públicas, reduzir de forma sustentável o peso da dívida e promover crescimento econômico com responsabilidade fiscal, os resultados também deverão ser reconhecidos, independentemente das preferências partidárias de cada cidadão.
Não há como antecipar com certeza qual desses cenários prevalecerá. O que existe são indicadores que exigem atenção, escolhas políticas que precisam ser avaliadas e consequências que não desaparecem com o encerramento de uma eleição.
A verdadeira questão não é quem sorriu na noite da apuração. É quem estará preparado para enfrentar os desafios econômicos que virão.
O Brasil não precisa de torcedores cegos, tampouco de opositores que desejem o pior para a nação. Precisa de cidadãos conscientes, governantes responsáveis e instituições comprometidas com a transparência.
A eleição termina, mas a conta continua. E, quando ela chega, não pergunta em quem cada brasileiro votou.
Fontes para conferência editorial
Banco Central — Estatísticas Fiscais: dívida pública, juros e resultados fiscais.
Tesouro Transparente: resultados do Governo Central e execução orçamentária.
Tribunal de Contas da União: fiscalização e análise das contas públicas.
Agência Brasil — Economia: dados e explicações sobre os resultados fiscais de 2025.

