
Lula gasta 80% dos 15 minutos do embate com Flávio acusando do senador ter recebido 134 milhões de Vorcaro
Olá, caríssimos leitores!
Sempre fui do pensamento de que um debate presidencial, da forma como ocorre no Brasil, tem pouca efetividade para o eleitor quando se transforma em um espetáculo de ataques pessoais, provocações e acusações recíprocas. O chamado “debate” acaba, muitas vezes, convertido em uma encenação política de quinta categoria, protagonizada por candidatos mais preocupados em desqualificar o adversário do que em convencer o eleitor com propostas concretas.
No debate presidencial promovido pela Rede Bandeirantes, na noite deste domingo (18 de outubro), o que se viu foi, mais uma vez, um confronto marcado pela troca de ataques entre os dois candidatos à Presidência da República: Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Lula atacava, Flávio contra-atacava, e o eleitor, que deveria ser o verdadeiro protagonista daquele momento democrático, ficava relegado a segundo plano.
O que deveria ser uma oportunidade para apresentar projetos de governo, discutir os problemas nacionais e esclarecer os rumos que cada candidato pretende dar ao país acabou se transformando em mais um capítulo da velha disputa política brasileira.
O disco arranhado de Lula Um dos momentos mais enfadonhos ocorreu no bloco em que os candidatos dispunham de tempo para abordar temas livres. Era justamente ali que se esperava um debate mais produtivo, com propostas para a economia, a saúde, a educação, a segurança pública e o combate à corrupção.
O candidato Flávio Bolsonaro, do PL, tentou direcionar a discussão para suas propostas e para questões de interesse nacional. Lula, por sua vez, insistiu em uma mesma linha de questionamento, repetindo, durante boa parte de seu tempo, a pergunta dirigida ao adversário sobre os supostos R$ 132 milhões que, segundo a acusação levantada no debate, teriam sido recebidos de Vorcaro.
A repetição da pergunta acabou produzindo a imagem de um disco arranhado: a mesma cobrança, a mesma insistência e pouca
disposição para avançar na discussão de outros assuntos relevantes para o país.
É legítimo que um candidato questione o adversário. Faz parte do jogo democrático cobrar explicações, confrontar informações e exigir transparência. Entretanto, quando a insistência em uma única acusação passa a ocupar o espaço que deveria ser destinado à
apresentação de propostas, o debate perde qualidade e o eleitor perde a oportunidade de conhecer melhor os projetos em disputa.
Flávio Bolsonaro, percebendo a estratégia de Lula, optou por não alimentar repetidamente aquela linha de confronto, deixando a
pergunta sem a resposta que o adversário procurava obter naquele momento. A estratégia pode ser discutida, assim como a insistência do petista, mas o resultado foi um embate que pouco acrescentou ao esclarecimento do eleitor.
É importante ressaltar que acusações dessa natureza precisam ser examinadas à luz de informações verificáveis, documentos e
esclarecimentos dos envolvidos. Em uma disputa presidencial, não basta repetir uma pergunta para transformar uma alegação em fato comprovado.
Cadê as propostas, candidatos?
A pergunta que fica é simples: onde estavam as propostas capazes de melhorar a vida dos brasileiros?
O país enfrenta desafios econômicos, problemas históricos na saúde pública, deficiências na educação, insegurança nas ruas,
dificuldades fiscais e uma população que deseja mais oportunidades de emprego e renda. Esses temas, por si só, seriam suficientes para preencher horas de discussão séria e produtiva.
O eleitor não precisa de dois candidatos disputando quem consegue desferir o golpe verbal mais contundente. Precisa saber como cada um pretende governar, de onde virão os recursos para financiar suas promessas, quais serão as prioridades do orçamento e quais mecanismos serão adotados para garantir transparência e responsabilidade na administração pública.
Promessas genéricas não bastam. Tampouco bastam acusações repetidas. O que se espera de um candidato à Presidência da
República é a capacidade de apresentar caminhos, assumir compromissos e explicar como pretende executá-los.
Um debate presidencial deveria funcionar como uma espécie de entrevista pública coletiva, na qual os candidatos fossem obrigados a demonstrar conhecimento, preparo, equilíbrio e capacidade de formular soluções. Afinal, governar um país continental como o Brasil exige muito mais do que habilidade para atacar adversários diante das câmeras.
Um espetáculo que cansa o eleitor
A partir daquele momento, o debate foi se tornando desinteressante, enfadonho e difícil de acompanhar. A repetição dos argumentos e a prevalência do confronto pessoal reduziram o espaço para uma discussão verdadeiramente programática.
É justamente esse modelo que contribui para o desgaste da política perante a sociedade. Muitos eleitores já estão cansados de assistir a disputas em que os candidatos parecem mais interessados em vencer o adversário no palco do que em apresentar soluções para os problemas que afligem a população.
Não se trata de defender debates sem confronto. Pelo contrário: questionamentos firmes são necessários, e candidatos devem ser
cobrados por suas ações, declarações e eventuais contradições. A diferença está entre um confronto que esclarece e outro que apenas produz barulho.
Quando a pergunta se repete indefinidamente, sem que o debate avance para outros assuntos, a impressão transmitida ao
telespectador é a de que faltou disposição para explorar a diversidade de temas que deveriam orientar a escolha de quem
comandará o país.
O Brasil merece mais do que isso
Na minha avaliação, o debate da Band, neste domingo (18), desperdiçou uma oportunidade importante de contribuir para uma
escolha eleitoral mais consciente. Em vez de proporcionar uma comparação consistente entre projetos de governo, terminou
marcado pela disputa retórica entre Lula e Flávio Bolsonaro.
O eleitor brasileiro merece mais respeito. Merece conhecer as propostas, avaliar os resultados das gestões anteriores, comparar
prioridades e cobrar compromissos objetivos. Merece, sobretudo, que os candidatos compreendam que a Presidência da República não é um prêmio concedido a quem melhor ataca o oponente, mas uma responsabilidade pública que exige preparo, competência e compromisso com a nação.
Lula, ao insistir na mesma pergunta, acabou reforçando a imagem do “disco arranhado” que dá título a esta análise. Flávio, por sua vez, tinha o desafio de transformar suas intervenções em oportunidades para apresentar propostas concretas, sem se limitar à reação aos ataques do adversário.
No fim das contas, fica a reflexão: quem ganhou o debate e quem ganhou o eleitor? São duas coisas bem diferentes. Um candidato pode até conseguir momentos de destaque diante das câmeras, mas isso não significa, necessariamente, que tenha convencido o cidadão sobre sua capacidade de governar.
Em uma eleição presidencial, o que deveria prevalecer não é o espetáculo, mas o conteúdo; não é a repetição de acusações, mas a
apresentação de soluções; não é a habilidade de constranger o adversário, mas a capacidade de conquistar a confiança do eleitor.
Porque, no Brasil, o que está em jogo não é apenas uma disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. É o futuro de milhões de brasileiros que esperam, de quem quer que vença nas urnas, muito mais do que discursos ensaiados e debates transformados em ringues políticos.
O Brasil não precisa de um disco arranhado. Precisa de ideias novas, propostas consistentes e governantes comprometidos
com o futuro da nação.
Por fim, se o debate programado para a Rede Globo no próximo sábado for nessa mesma pegada , sugiro que o eleitor vá assistir uma boa partida de futebol ou um bom filme. Por que convenhamos, paciência tem limite, a dos eleitores já acabou.

