Vestidos pretos, francesas e porcos


Os códigos do mundo mudaram completamente, mas uma geração de mulheres não viu. Entre essas estão a atriz francesa Catherine Deneuve, 74, e a ex-modelo e cronista brasileira Danuza Leão, 84. Por suas falas recentes, ambas parecem ter ancorado sua percepção de mundo no passado, em um tempo que já não existe. Não perceberam que as engrenagens do mundo mudaram e os códigos sociais e sexuais mais ainda.
Danuza, ícone de beleza no Brasil dos anos 60 e hoje com um rosto irreconhecível após sucessivas plásticas, não escapou nem mesmo da ironia condenatória dos netos, João e Rita Wainer. Ambos reagiram às teses da avó, em defesa do assédio sexual, postando em suas redes sociais a fotografia de um muro onde se lê a pichação: “minha vó está maluca!”
Zé Mayer
O imbróglio envolvendo mulheres, assédio e “porcos” assediadores explodiu de vez na cerimônia do Globo de Ouro, a mais famosa premiação do audiovisual americano depois do Oscar. O dress code das celebridades foi a unanimidade na cor dos vestidos: preto. Com seus vestidos, as famosas de Hollywood não estavam nem um pouco interessadas em fazer a diferenciação entre assédio sexual e paquera saudável. Essa diferenciação já se sabe desde capítulos anteriores, embora haja muita gente radicalizando, de um lado e do outro, propositadamente para borrar as fronteiras entre coisas tão nítidas. O objetivo do vestido preto era protestar contra os assediadores nos bastidores da indústria do entretenimento mais rica e poderosa do mundo.
As moças trajaram luto para anunciar aos machos da indústria audiovisual americana que o tempo do assédio acabou e que não só aqueles que vierem assediar serão cuspidos pelas grandes empresas da área. Aqueles que já fizeram isso, mesmo que tenha sido em um passado remoto, não ficarão impunes. As moças estão com sangue no olho e Hollywood já deu sinais de que vai ouvi-las a partir de agora. Os atos não serão esquecidos e tampouco perdoados. É uma espécie de #saotodoszémayer. E sim, a nova ordem das coisas vai retroagir para punir quem assediou no passado.
O impacto dos vestidos pretos se estendeu. Um dia depois, um grupo de 100 atrizes, intelectuais e artistas francesas, cujo nome mais famoso era o do ícone de beleza dos anos 70, Catherine Deneuve, acusou as americanas de puritanismo e de promover o fim da liberdade sexual. A ação e a reação correram mundo, e, como era de se esperar, a arena principal da contenda foram as redes sociais. Os meios de comunicação no Brasil deram ampla repercussão ao caso, com acadêmicas, jornalistas, personalidades e homens falando dos movimentos #MeToo, #TimesUp e #balancetonporc (entregue seu porco).
Canteiro de obra
No Brasil, a declaração mais datada e de mau gosto foi a de Danuza. Ela não apenas endossou a tese da atriz francesa, para quem o homem tem o direito de importunar, assediar com insistência e beijar sem consentimento uma mulher a quem queira conquistar. Foi além: disse que uma mulher deve se sentir realizada ao ser cantada ao passar por um canteiro de obras, que precisa ser cantada pelo menos três vezes por semana para se sentir bem com ela mesma e que as atrizes de preto devem ser do tipo pouco paqueradas e que voltam para casa tristes e sozinhas. Oh, Danuza, no seu tempo, o Rio de Janeiro era glamuroso, as mulheres estavam brigando pela liberdade sexual trazida pela pílula, a droga era recreativa, o divórcio era proibido. Esse tempo passou e hoje as mulheres desconhecem essa estranha dependência do canteiro de obras para alimentar a autoestima.

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