26 de maio de 2022
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A semana em que Michel Temer tremeu


Menosprezaram o poder de fogo dos irmãos Batista, Joesley e Wesley, diante da República porque quiseram. Provas públicas de ter muita bala na agulha a dupla goiana, os filhos de Seu José, vêm dando há muito tempo. Não reparou quem não quis. Ou vocês acham que é pouca coisa, mesmo que à base de muito dinheiro, convencer ninguém menos que o até então ultra vegetariano Roberto Carlos a comer um bife e elogiar a marca da iguaria numa das mais polêmicas campanhas publicitárias brasileiras?
Tendo como sócio o banco público de investimentos BNDES, o que mostra o quanto é maravilhoso ser capitalista com dinheiro do governo, o mais famoso dos irmãos, Joesley, acumula provas do seu poder agregador e de sedução. Depois de conquistar os governos Lula e Dilma, conquistou o coração da princesa baiana da bancada do jornalismo da Band, a quem pediu em casamento diante das crateras de um vulcão na Tanzânia e com quem casou, logo após, nada menos que três vezes: no Taj Mahal, na Índia; em Bora Bora, na Polinésia Francesa; e numa das maiores festas de arromba já vistas em São Paulo. Num convescote para mais de 1.500 convidados e que foi até as 6 da manhã no Jardim Europa, em São Paulo, Bruno e Marrone e Ivete Sangalo fizeram todos dançar, abastecidos pelos mais caros champanhes franceses.
[RAPOSA] De lá para cá, uma das primeiras damas do telejornalismo, Fátima Bernardes, e um dos astros do primeiro escalão da teledramaturgia, Tony Ramos, ambos globais, se tornaram, ao lado do Rei Roberto, as caras da Friboi, a marca mais vistosa da holding dos Batista, a J&F. Quem convence Roberto Carlos a ir para a TV comer bife bovino merece respeito e, somente por isso, o presidente Michel Temer já deveria saber que não estava diante de qualquer um quando o recebia às escondidas no Palácio do Jaburu. Foi ingênuo, para dizer o mínimo, quando achou que, ali, o poderoso era ele, Temer. Assim, se deixou pegar no contrapé, recebendo, altas horas, uma raposa com expertise a perder de vista no tabuleiro do poder, e o fazendo ao lado da alcova onde dormitavam a bela Marcela e o infante Michelzinho.
Como assim, presidente? Que história é essa de desqualificar Joesley, acusando-o de, nos últimos anos, ter se beneficiado horrores e indevidamente da bondade do BNDES e de ser um caramunhão criminoso? Se sabendo disso tudo, então, por que, em sua gestão, continuou a recebê-lo com a pompa, a exclusividade e as circunstâncias só dedicadas aos íntimos e confiáveis, para cochichos e sussurros palacianos, sobre temas tão nitroglicerinados? Como se fosse pouco, o recebia escamoteado, permitindo que Joesley desse nome falso na portaria da residência oficial. Desqualificar o conteúdo das gravações torna-se tão frágil diante disso que não deve ser à toa que, além do próprio presidente, a única voz que rebate com veemência a renúncia é a do deputado Carlos Marun (PMDB- MS), conhecido como o bom companheiro e defensor solitário de Eduardo Cunha.
[COCAÍNA] Que Marcelo Odebrecht que nada. O nome das delações é Joesley, o homem dos frangos, o rei do mercado das carnes, que deixou a delação do fim do mundo, como foi batizada a da Odebrecht, com um quê de palidez. O estrondo das cenas protagonizadas nos depoimentos dos executivos da maior construtora do país parecem agora o som de um traque junino perto das imagens das malas e malas de dinheiro distribuídas pelos Batista e chipadas pela Polícia Federal. O que são as ironias dos executivos da empresa baiana perto dos palavrões gravados do senador Aécio Neves e do seu pedido de dinheiro a Joesley, para pagar advogados para defendê-lo na Lava Jato?
O que são os Odebrecht, diante das provas de que esse dinheiro, dado por Joesley a Aécio e cujo número de série das notas foi rastreado pela Polícia Federal e pelo Ministério Público, foi parar numa conta bancária do também senador mineiro Zezé Perrela (PSDB-MG), que ficou nacionalmente conhecido depois que a polícia interceptou um helicóptero seu carregado de cocaína e cujo inquérito foi arquivado? Não à toa, na semana em que os Batista fizeram Temer tremer no cargo, a equipe da melhor série de ficção política de hoje, House of Cards, veio a público, nas redes sociais, para lamentar, em português, que está difícil de competir com o realismo da política brasileira. Não à toa surgiu nas redes sociais um apelo mundial, o “Meditate for a better Brasil”. O mundo está preocupado conosco.

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