Saudades das mães de miss

FOTO: (Foto: Mônica Dias/G1 AM)

No fluxo da revolução de hábitos e das mudanças e impactos no comportamento humano gerados pelas redes sociais há, para além de tudo aquilo que a gente já sabe, seja de bom ou de ruim, um verdadeiro universo paralelo, para além, também, do bem e do mal.
Há, nesse universo, um fenômeno para o qual pouca gente atentou, a não ser quem tem ou gerencia uma marca ou administra negócios voltados para o varejo, como lojas, shopping centers e que tais: as mães de blogueirinhos e blogueirinhas mirins, crianças na maioria das vezes tão novinhas e pequenas que nem escrever as primeiras letrinhas sabem. Lê-las, muito pior.
As mães das blogueirinhas estão hoje para o que um dia já foram as mães de miss, lá no século passado, onde as giseles da vida não estavam nas passarelas de moda, mas nos concursos de beleza cujo topo eram a coroa e a faixa de miss Brasil e miss Universo. Pensem aí: a mulher mais bonita do universo! O sonho das mães.
O glamour das misses foi embora há muito tempo e o concurso hoje não passa de um arranjo entre emissoras de TV, negociações entre empresários e agentes esquisitões que escalam uma boa uma moçoila que vive no interior de São Paulo para concorrer representando o estado do Rio Grande do Norte. É quase por aí.
DITADOR COREANO
Passamos pela era das mães das modelos, mas essas eram menos ativas e visíveis, pois o negócio das passarelas se profissionalizou já tendo à frente agências e agentes em cujos manuais não havia espaço para o amadorismo das mães das adolescentes, fase em que toda modelo inicia a carreira. Agora estamos na era de ouro das blogueiras e as assessorias de comunicação de marcas e estabelecimentos estão a ponto de fazer uma parceria com Kim Jong-un, o ditador doidão da Coreia do Norte, pois só arsenal nuclear deve ser capaz de deter a ambição, os planos e o complexo de auto importância que esse novo nicho atribui a si e aos rebentos.
As mães de blogueiros mirins criam perfis de seus filhotes em redes sociais, a maioria mães de meninas, que fique claro, já com o propósito firme de ganhar muito dinheiro usando a imagem das crias. Empetecam as crianças ao ponto de deixá-las no estilo “burro de cigano”, muitas tratam logo de comprar milhares de seguidores fakes nas like farms disponíveis às centenas na web e vão às compras de cachês para o digital influencer mirim. Outro dia, um amigo de profissão me disse que os jornalistas estão ficando doidos com o assédio das mães dos pequeninos digital influencers. Achei, inocentemente, que elas procuravam os jornalistas em busca de um assessor de imprensa para os filhos, o que seria normal, digamos, já que no mundo de hoje até um BBB que sai da casa de câmeras na primeira semana já entra lá com um assessor.
LOOKINHOS
Minha inocência foi destruída com a resposta. Não, as mães de blogueirinhos mirins já são elas mesmas as donas, as agentes, as assessoras de imprensa e as vendedoras dos seus próprios produtos, ou seja, seus filhos, devidamente precificados, para usar um adjetivo da moda no jornalismo econômico e político. Elas não querem assessoria. “Elas querem dinheiro”, responde o coleguinha jornalista de olho arregalado. As mamães procuram jornalistas para oferecer “parcerias” para lojas e tudo o que seja vendável. Traduzindo, a parceria funciona assim: a digital influencer, que na maioria dos casos ainda nem aprendeu direito a falar, posa para um post com um produto X, a marca paga Y à mãe por isso e está concluído o negócio. Segundo as mães, claro, o produto do post desaparecerá das prateleiras e araras do universo, pois os ávidos seguidores do rebento comprarão tudo em horas. Se vocês não sabem o que é o fenômeno, procurem na web entrevistas de mães de crianças com essa ‘profissão”. Se sobreviver aos termos lookinho, vestidinho, princesinha, posinhas, mini fashionista e aos agradecimentos a Deus, a diversão está garantida.

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