‘Que gay o caralho!’


Entre todos os shows em que fui até hoje, guardo entre os inesquecíveis “Inclassificáveis”, de Ney Matogrosso, em 2009, no antológico Canecão, no Rio, uma das casas de espetáculos mais importantes para a música brasileira, aberta em 1967 e fechada em 2010, após uma sucessão de querelas judiciais entre a dona do imóvel, a Universidade Federal do Rio, e os inquilinos. Voltei a ver o mesmo show no TCA, meses depois, mas não foi a mesma coisa. A beleza do teatro, claro, superava tudo e qualquer coisa do Canecão. E Ney, bem, Ney era o mesmo deus de sempre no palco.
Talvez tenha sido o choque inicial da beleza que tenha corticalizado em mim o Ney do Canecão. Talvez a proximidade entre ele e o público, saindo do palco, esgueirando-se feito serpente, quase invertebrado, embora no auge da forma física, cantando “me deixe alto, alto, alto/e eu prometo te deixar mole, mole, mole”, num convite explícito a uma dança do acasalamento amoroso, tão estetizada quando erótica, lambendo o pornográfico.
MOLE, MOLE
Era Ney sendo Ney. Lânguido, pleno, sensualíssimo, nu, vestido de pele de ouro por Ocimar Versolato, que costurou uma segunda pele em seu corpo e montou um figurino de deus inca, trocado três vezes diante da plateia. Aquelas coisas que não se repetem nem se esquece: a gente no lugar certo, vendo a pessoa certa, construindo memórias com quem se queria.
Quase uma década depois, corto a cena e estou no centro desse mundinho de agora, nem melhor nem pior, só muito diferente, como determinam as engrenagens do tempo. Nesse mundo em que multidões anônimas e pessoas famosas, quase sempre furiosas e com fuzis transformados em letras e palavras hiperbólicas, se enfileiram para linchar o outro, tão somente porque esse outro ousa dizer o que não querem que ele diga, porque ousa dizer algo diferente do que esperam, porque não reza por suas cartilhas marcadas por obrigações, caixinhas, imperativos e fronteiras. Meu corpo, minhas regras, desde que essas regras estejam na cartilha que já nos dão pronta.
A multidão anônima, ou nem tanto, na efemeridade do tribunal virtual, se imbui agora da função de cassar até mesmo o direito de nos autodescrevermos nos termos em que queremos. Quem pode nos tirar o direito de não sermos obrigados a carregar bandeiras? O apedrejado da semana foi ninguém menos que ele, Ney Matogrosso. Logo Ney, que sempre foi uma bandeira contra os ventos da repressão. Logo Ney, que é todo bandeira, de si, contra o atraso, a cafonice, bandeira de uma liberdade e uma vanguarda que sempre encarnou e nunca deixou morrer.
SALA DAS ARMAS
“Que gay o caralho! Eu sou um ser humano, uma pessoa. Eu não defendo gay apenas, defendo índios, negros. Estou atento aos sinais”. Esse foi o crime de Ney Matogrosso, 75 anos, expressado numa entrevista à Folha de S. Paulo, no contexto da homenagem feita a ele no 28º Prêmio da Música Brasileira. O ativismo gay foi à sala das armas e voltou querendo a cabeça do cantor. Quem puxou o coro foi o cantor pernambucano Johnny Hooker, justamente um menino que bebeu e bebe na fonte estética e performática de Ney no palco.
Para Hooker, Ney perdeu o andar do mundo e suas palavras foram desastrosas. Ainda foi cínico: disse que os sinais do mundo estão chegando embaralhados à cobertura de Ney, no Leblon. Ativistas mais radicais, e os haters, claro, foram atrás, sob o argumento de que Ney não tem o direito de não carregar bandeira no país que mais mata gay no mundo. A essa altura da vida, quem acha que pode dizer o que Ney deve ou não dizer ou fazer é porque não entendeu nada: nem sinais, nem o andar do mundo. Só quer evacuar regras para a vida alheia.

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