O telejornalismo baiano e os mortos de Mar Grande

Foto: Correio da Bahia (Arquivo Google)

Ô profissão ingrata da porra, ser jornalista em Salvador. Os mortos de qualquer lugar do mundo valem mais que os nossos, aqui na cara da gente. Um barco afunda com mais de 130 pessoas, entre passageiros e tripulantes, 24 morrem (até enquanto escrevo este é o número oficial, mas não se sabe, claro, quantos corpos ainda irão ser resgatados mortos) e as emissoras de TV de Salvador, com raras exceções, se limitam a dar pequenos flashes. Como pode até agora, quando começo a escrever, 11:45, a TV Bahia estar transmitindo Encontro com Fátima Bernardes? O máximo que se fez, além dos flashes, foi antecipar (agora) o Bahia Meio Dia em 15 minutos. A gente, do meio jornalístico, pode até saber que a programação da TV Bahia é engessada, por conta das amarras com a Rede Globo. Eu sei, eu compreendi. Mas vá explicar isso para o telespectador. E depois a própria Globo fica arrancando os cabelos porque o programa de Bocão está dando quase todos os dias 28 pontos de pico no Ibope contra 14 da TV Bahia. A um homem profundamente triste que foi para o Terminal Marítimo do Mercado Modelo em busca de colegas, funcionários públicos que moram na ilha e não chegaram para trabalhar, uma repórter pergunta: “o senhor está PREOCUPADO? Meu Deus, “preocupado”?? A gente só vê o despreparo para entrevistar pessoas envolvidas numa tragédia quando uma acontece. Diante de um sobrevivente abaladíssimo, à espera de informações de pessoas que estavam com ele na embarcação e estão desaparecidas, o câmera insiste no close em seu rosto mesmo quando ele não suporta concluir a frase e conte o rosto com as mãos para chorar. Deve haver um curso em algum lugar do mundo para ensinar jornalistas a abordar vítimas de tragédia. A gente não vê os correspondentes internacionais enfiando microfone e câmeras nos canais lacrimais de sobreviventes de atentados, por exemplo. É coisa nossa, esse comportamento?
Alguém duvida que se um barco com cerca de 130 pessoas afundasse na Baía de Guanabara, se fosse uma das barcas de Niterói, ou em Santos, nós, aqui na Bahia, não estaríamos vendo desde muito cedo todo o processo de resgate transmitido ao vivo, ou com 500 flashes durante toda a manhã?!
E a gente nem sabe o que é pior, se a falta de cobertura ou se a própria cobertura, pois a TV Aratu, quando resolveu abordar o assunto, trouxe uma avalanche de motivos para a gente deprimir. Exibiram um vídeo com uma espécie de making of dos editores de imagens editando cenas da tragédia e…. RINDO!! Ô Pablo Reis, você sabe o quanto eu lhe respeito, o carinho que sempre tive e tenho por você, mas, pelamordedeus, qual é a necessidade de você, com sua própria voz, anunciar a exibição de “imagens do desempenho da TV Aratu” na tragédia, com uma câmera dentro da sala de edição, o editor sorrindo [quando a imagem abre há alguém sorrindo; ao perceber que já estão sendo exibidos, fecha o semblante], e você perguntando a alguém de sua equipe se ele tinha filhos, como se sentia vendo aquilo. Ô Pablo, não desceu, essa abordagem. Ficou entalada na garganta e não foi só na minha. E qual a necessidade de ressaltar o desempenho da Aratu numa hora dessas, como se a emissora fosse mais eficiente que as outras? O público sabe quem fez o quê. Posso estar muito equivocada, mas era necessário mesmo esse tipo de abordagem? Convocar a gente que tem filho para se emocionar pensando nos próprios filhos como se a perda dos filhos dos outros não fosse suficiente para a nossa comoção?
Quando há um atentado em qualquer país a Globo News fica eternamente ao vivo, mesmo quando não há nada novo para mostrar ou dizer. Acontece uma tragédia dessas e veicula-se apenas pequenas imagens e curtíssimas abordagens. Diferentemente da tragédia do Pará, tão trágica quanto a nossa, o acesso da imprensa era difícil, lá no meio do Rio Xingu. Fazer imagens era praticamente impossível até o resgate do corpos e a chegada à beira do Rio, a chegada da imprensa até esse local, etc. Mas em se tratando de Salvador e Itaparica?! Qual o argumento técnico para não se fazer uma cobertura mais decente e ágil? Quantos minutos se leva numa lancha moderninha que levaria num fechar de olhos a imprensa e suas câmeras para Mar Grande. É como se não bastasse a péssima cobertura a gente ainda é obrigado a ler coisas que mais parece estratégia de assessoria para fazer governantes ficarem bem na fita, do tipo: fulano de tal fala sobre o apoio do governo no processo de resgate após tragédia. Ô fulaninho, isso nem precisa ser publicizado. Apoiar é o óbvio, não deve ser transformado em notícia, mesmo porque ninguém sabe até agora a responsabilidade do poder público no episódio. Por que se fala tanto em tragédia anunciada? Certamente alguma coisa os poderes públicos responsáveis por essa modalidade de transporte deixou de fazer algo.
Pela precariedade da cobertura (os sites e os jornais não estão incluídos nessa queixa), se acontecer agora um atentado com um morto em Paris a gente, aqui em Salvador, corre o risco de passar o resto da tarde vendo na TV correspondentes falando e mostrando os franceses.
PS1 – Não revisei um A, para não deixar passar o desejo de publicar isso.
PS2 – Se eu tiver sido injusta com algum coleguinha de profissão, se não avaliei direito, se exagerei, se vi mal, peço desculpas e peço mais: podem postar aqui no meu espaço, tipo linha do tempo me marcando, publicamente, onde errei, onde me equivoquei. Diante de uma tragédia, todos erram, inclusive eu, ao enxergar erro nos outros.

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