O mimimi da imprensa

por Hugo Studart

Há muito mimimi e chororô com nas queixas dos coleguinhas sobre as restrições da segurança à cobertura da posse de Bolsonaro. Ora, quase sempre foi assim, e se houve um momento de menor restrição foi no final do regime militar; e se houve um momento de maior restrição foi no governo Lula, pior ainda com Dilma.
Quando eu era um jovem repórter durante o governo do general Figueiredo, circulava livremente pelos corredores e andares do Palácio do Planalto, exceto a ala presidencial, obviamente.
Naquela época, cruzei e abordei vários ministros, dentre eles o general Medeiros, do SNI, e o general Venturini, do Conselho de Segurança Nacional. Lembro-me que certa vez peguei Venturini dentro do banheiro do quarto andar. Vivíamos fazendo campana na porta dos gabinetes de alguns ministros.
Sarney começou com tudo aberto. Até que um dia um repórter experiente que ele conhecia do Congresso, bateu na barriga do presidente e disse: “Porra, Sarney, fala a verdade”. Começou aí um processo de pequenas restrições ao acesso aos jornalistas.
Com Collor, o primeiro presidente eleito pelo voto direto, os jornalistas perderam acesso ao terceiro e ao quarto andar do Palácio. Mas podiam circular livremente pelo térreo e pelo segundo andar. O presidente, com seu ar blasé imperial, também apertou o torniquete com os cercadinhos (os currais, também chamados de chiqueirinhos) nas coberturas fora do Palácio. A imprensa era toda contra e ele fazia questão de não dar trela aos jornalistas. Foram mais de 2 anos de confronto aberto e de escaramuças recíprocas.
Com Itamar abriu um pouco. Veio Fernando Henrique e aconteceu uma abertura maior. Foram bons tempos nas relações entre autoridades e imprensa. Contudo, FHC não reabriu o acesso ao terceiro e quarto andares do palácio, como nos tempos dos militares.
Lula chegou para fechar tudo. Nem ao segundo andar, onde fica assessoria de imprensa, tínhamos mais acesso. Nunca vi tão pouca transparência. Um horror. Mas não me lembro de nenhum coleguinha se queixando das restrições à imprensa e da falta de transparência por parte do PT. Ao contrário, havia louvor ao oculto. Veio Dilma e as restrições foram maiores ainda. Tudo era proibido. Mas não houve mimimi.
Os tempos de Bolsonaro se anunciam como de confronto permanente, exatamente como nos tempos de Collor. Jornalistas não gostam do presidente e vice versa. A ver no que vai dar isso…
Também tenho lido queixas de jornalistas a supostos acessos privilegiados a alguns coleguinhas. Ora ora, as autoridades sempre tiveram os seus jornalistas prediletos. É com eles se cria confiança e, quando der, se faz confidências, os tais furos.
Figueiredo tinha Élio Gaspari e Getúlio Bittencourt, que eu me lembre (sendo que mestre Gaspari teve acesso a todos os presidentes até a ascensão de Lula, que o cortou). Sarney tinha muitos queridinhos. Lembro-me do meu amigo Mario Rosa, que a partir de Sarney passou a ter acesso privilegiado a muitas outras autoridades.
Esse é o trabalho do bom jornalista. Daqueles que tinham acesso direto a Collor, lembro-me só da Dora Kramer. Itamar gostava muito da Flávia de Leon, da Folha, mas acho que ela não chegou a ter informação exclusiva. Fernando Henrique, tal qual Sarney, conversava em off com muitos e muitos, inclusive comigo.
Com o Lula, o acesso privilegiado às autoridades do governo passou a ter critérios iminentemente ideológicos. Seu ex-assessor Kennedy Alencar, por exemplo, ascendeu como meteoro nesse tempo. Ele sempre foi competente, trabalhamos juntos, mas teve acesso muito maior do que os demais. Idem Mônica Bergamo e Tereza Cruvinel.
No espectro oposto, quem não era petista, vivia a pão e água. Era o meu caso, persona suspeita (por ser filho de milico), que tinha que buscar meus furos longe do governo e contra o governo. Deu certo. Até ganhei prêmio.
Dilma não deu acesso a ninguém, ninguém mesmo. Nem jornalista, nem político e nem mesmo petista. Temer era suave com os coleguinhas, tal qual Sarney. Mas eu estava longe deste mundo e não tenho informações sobre quem é quem. Acho que Merval Pereira e Eliane Cantanhêde foram seus prediletos.
É óbvio que, tal qual Lula, Bolsonaro tem suas preferências e implicâncias. Tudo indica que ele vai implicar com os repórteres da Globo, da Folha e da Veja. Alguns mais do que outros. Tudo indica que ele vai ser complacente com alguns blogueiros, com a Record e o SBT, e sobretudo os seus comentaristas prediletos, Alexandre Garcia, Augusto Nunes e José Nêumanne. Acho que Merval também. Quatro excelentes escolhas.
Quanto aos demais, vão ter que se conformar em fazer como eu fiz na Era do PT: cobrir o governo através da oposição.
O resto é mimimi.

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