Nós mudamos e não perceberam?

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Fonte: site Resenha da Bahia

Nos tornamos diversas demais, heterogêneas demais, fortes demais, resistentes demais, para nos sentirmos representadas, como grupo, por esses “penduricaralhos” cor-de-rosa digitalizados.
Nós mudamos e não perceberam?
As redes sociais, e principalmente os aplicativos de troca de mensagens privadas, estão dando, neste 8 de março, um exemplo de que, quando se trata de homenagear as mulheres, inclusive umas às outras, a letra despretensiosa da canção de Nando Reis, na qual o compositor se pergunta se “o mundo está ao contrário e ninguém reparou” pode ilustrar muito bem o que aconteceu com as mulheres nas últimas décadas e ainda parece invisível.
Ok, imagens de flores “fotoshopadas” em cores vibrantes são bonitinhas, letras cursivas digitalizadas com frases rasinhas são fofas e muita mulher deve sonhar em ter como ícone Nossa Senhora, que concebeu, pariu e viveu, até onde a narrativa religiosa nos conta, casta e sem sexo… Mas vamos a um papo reto: a quem, quais as mulheres que essas imagens e esses símbolos representam?
A maioria das mulheres que conhecemos só teve contato com uma rosa num canteiro zelado de alguns casa, num jardim alheio ou com uma que ela mesma plantou. Rosas presenteadas por um homem que hoje as homenageiam virtualmente com rosinhas digitais? Muitas de nós nunca soubemos o que é isso. E isso antes que algum comentário a esse texto o use como pretexto para, mais uma vez, me provar e convencer que a nova palavra da ordem feminista, – a solidariedade específica entre as mulheres -, só funcionava até o 2º parágrafo e me tachem de recalcada, esclareço: não estou me ressentindo de não ganhar rosas ou flores em geral. Já ganhei muitas, inclusive de gente de quem eu nem fazia questão de recebê-las, pelo esvaziamento de sentido ou pela falta de desejo mesmo. Mas agradeci de forma civilizada e também interiormente, pois gentileza deve gerar gentileza, desde que não venha acompanhada de burrice ou tacanhice quando a gente já passou da idade de perder tempo com isso. Flores são flores. Outros quinhentos, no entanto, são quilos de rosas para pedidos de desculpas por deslizes rudes cometidos nas vésperas dos buquês. Nesse caso, lata de lixo e devolução são as recomendações.
A resposta à canção de Nando Reis, ainda mais bela no registro feito pela voz inesquecível de Cássia Eller, é um sonoro sim quando se trata do mundo das mulheres. Nosso mundo girou, está literalmente ao contrário, no sentido mais positivo da palavra, e muita gente não reparou. Nos tornamos diversas demais, heterogêneas demais, fortes demais, resistentes demais, para nos sentirmos representadas, como grupo, por esses “penduricaralhos” cor-de-rosa digitalizados. Queremos ser lembradas sobretudo pelo que nos negam em termos de respeito, dignidade, altivez, gentileza, cumplicidade, afeto verdadeiro, companheirismo e aceitação cotidiana do nosso valor e talento. E se você é homem e não está disposto a nada disso, eu, embora não me ache no direito de representar ninguém, me dou a ousadia e convido minhas raras ou muitas, conhecidas ou desconhecidas cúmplices a dizer de forma clara a quem cabe nesse rótulo masculino: publique anúncios procurando invertebradas, seres que, quando você disser “quadrada!”, enquadrarão ao sabor da sua ordem, e quando você gritar “redonda!”, arredondarão de pânico, com medo do seu berro. E cuidado, homens ou mulheres, com o que vocês desejam, pois vocês podem conseguir. E cada um só tem o que pode e o que merece ter. Nós, mulheres, queremos ser tudo, desde que por tudo entenda-se aquilo que nós queremos ser e não o que nos ordenam ou permitem.
Mulheres, olhem para o lado. Independentemente de quem está com você, pergunte-se e tente arrancar de si mesma uma resposta que não seja do tipo autocontrolo: você tem uma companhia agradável ou alguém que lhe trata e lhe quer como uma propriedade sem desejo e vida própria? Se a resposta relacionar-se a posse, abuso e opressão, pense na história do passarinho. Se você passa andando sob uma árvore e um pássaro faz uma caca em sua cabeça, foi o acaso, você não tem nada a ver com isso. Já, no entanto, se a cada dia você volta para a árvore, fica lá embaixo e vai deixando o passarinho derrubar gravetos em sua cabeça, um dia se dá conta de que já há um ninho, ovinhos chocando, passarinhos nascendo… opa! A responsabilidade é toda sua. Invertebrou, querida. Mas há saída: o ser humano é o único animal que tem todas as possibilidades e todo o poder de mudar completamente o caminho que tá fazendo. Chamam isso de livre arbítrio, bom senso, inteligência…

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