28 de maio de 2024
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Não é só Jesus na causa


No mesmo domingo em que o jornal O Globo, com base em dados da Receita Federal, trazia como manchete a informação de que a cada hora uma nova igreja é aberta no Brasil, Salvador acordou literalmente tremendo. Partes da cidade e outras do entorno despertaram sob um grande estrondo que sacolejou portas, janelas, provocou agonia em animais domésticos e há até registros testemunhais de pessoas que viram os peixes no mar da Barra dando pulos sobre a água. O que uns chamam de tremor, outros de barulho e outros de estrondo, ninguém sabe ainda diagnosticar ao certo.
Diante dessa multiplicação desordenada de organizações religiosas, certamente o que não deve ter faltado nas pregações do resto do domingo, independentemente do credo do pregador e dos fiéis que acorrem desesperados aos templos, buscando no divino o que a ciência ou as explicações sociais não dão conta, foram explicações atribuídas a avisos ou à fúria de Deus, para punir tantos desmandos na terra. Referências ao apocalipse devem ter sido fichinha, com direito à revisitação da lição sobre Sodoma e Gomorra e que tais. Que o fenômeno deve ter sido usado para fidelizar muitos fiéis, quem duvida? Com Jesus na causa, aceita-se tudo sem pestanejar.
VENDILHÕES DO TEMPLO
Sobre os vendilhões dos templos religiosos, que seria bom abordar, certamente nenhuma palavra foi dita. Mas por que justo Salvador e terras do seu entorno sacolejaram? Ora, nada que um orador talentoso não possa encontrar variadas e múltiplas saídas argumentativas que deem conta de explicação. Enquanto quem alimenta, como fiel, esse mecanismo que fez com que somente entre janeiro de 2010 e fevereiro deste ano 67.951 entidades religiosas tenham sido registradas no Brasil, sob a nomenclatura “organizações religiosas ou filosóficas”, o que dá uma média de 25 por dia, comumente o faz em nome de alguma fé, já não se pode dizer que o que move os fundadores dessas engrenagens divinas tenham tão somente a crença como motivação.
Quase sempre quem está do outro lado do balcão divino é movido, desconfia a Receita Federal, por interesses religiosos familiares privados e por algo ainda mais sofisticado: conluio publicitário e financeiro com várias emissoras de TV Brasil afora. E se é para falar de cifras, procure saber por quanto uma emissora de TV vende uma horinha do seu tempo a essas organizações. A internet está aí para isso. E também, claro, para dar uma espiada na extensão da vida de luxo que esses gurus religiosos televisivos levam.
Como todo mundo sabe, emissoras de rádio e de TV são concessões públicas e têm como obrigação legal obedecer a um teto de veiculação publicitária. Como as organizações religiosas, ou seja lá que nome lhes seja dado, não são consideradas empresas e são isentas de IPTU, Imposto de Renda sobre as doações recebidas, ISS, IPVA sobre os veículos adquiridos e até de tributos indiretos, como o ICMS, sobra, e muito, dinheiro para comprar horários nas emissoras de TV e, assim, fazer publicidade disfarçada da causa da igreja X ou Y. Para as emissoras, sobretudo em tempos de crise, a estratégia é uma mão na roda.
Quem já não viu, por exemplo, emissoras baianas tirarem programas locais do ar porque venderam o horário dos referidos programas a pastores ou a determinadas igrejas? Se o que tais igrejas estão fazendo, comprando, e as TVs vendendo, não é publicidade indireta e infringindo o percentual de tempo publicitário veiculado, como chamar, então, esse fenômeno? Em tradução clara, a multiplicação de igrejas nada mais é senão publicidade caríssima, à custa do bolso geralmente de quem dá o que não tem, acreditando em Jesus como causa. E mirem-se na Índia, onde a cada passo tropeça-se num templo. Ou seja, se templos resolvessem o problema do povo, aos indianos pertenceria o reino da terra.

O Boletim

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