Não é a TV, é a sociedade

cleo-pires-paulo-vilhena-paralimpiada-3Foto: Arquivo Google

Desde o início da cobertura da Paralimpíada 2016, uma das cobranças mais frequentes feitas aos meios de comunicação, principalmente às emissoras de televisão aberta, tem sido a seguinte: por que as redes de TV não têm transmitido as competições paralímpicas? A pergunta vem sendo feita sob uma infinidade de variações semânticas, mas sempre cobrando a mesma explicação. Ou seja, por que na Olimpíada se transmitia ao vivo até prova de cuspe a distância e nenhum feito paralímpico merece sequer uma entrada ao vivo num programa esportivo de TV?
Trocando em miúdos, o que boa parte dessa audiência que pergunta sobre o assunto quer saber é: por que as competições olímpicas interferem de forma total na grade de programação das emissoras de rádio e TV, antecipando horários de telenovelas, de telejornais ou até mesmo suspendendo a veiculação de programas líderes de audiência? E como no Brasil há muito convencionou-se que a quase totalidade do que há de ruim, errado ou inadequado no país a culpa é da Rede Globo, vamos combinar que as pessoas não perguntam por que a TV não transmite a Paralimpíada.
SEM BRAÇOS
Quando se pergunta sobre as razões da não transmissão, o que se diz, na verdade, mesmo quando o nome da emissora não é pronunciado, é que a Rede Globo, só para variar, se comporta como uma madrasta má ao cassar dos brasileiros o direito de ver seus atletas paralímpicos disputando provas. Mesmo porque, sejamos francos: quem se importa com o que Sílvio Santos está transmitindo em seu SBT numa tarde qualquer de setembro, enquanto, em alguma arena do Rio de Janeiro, um brasileiro amputado, seja sem pernas ou sem braços, está sobre um pódio recebendo uma medalha de ouro, prata ou bronze?
Feita essa primeira observação, a  das críticas quanto a não transmissão das provas paralímpicas voltadas para a Globo, um segundo aspecto chama atenção: as emissoras de televisão abertas não transmitem eventos por simpatia ou por atribuir valor às causas neles envolvidos.
Os transmitem basicamente por duas razões: quando o potencial de público, de audiência, é indiscutível e porque, principalmente, faturam milhões e milhões com o que arrecadam em anúncios publicitários. Em outras palavras, infelizmente, ainda é assim: os jogos paralímpicos não contam, ainda, nem com o apelo da audiência, diga-se de passagem constituída pela própria sociedade, e não por imposição de nenhuma emissora de televisão, nem tampouco contam com a disponibilidade das grandes marcas nacionais e multinacionais para investir seus milhões para associar suas imagens à causa da deficiência.
CLÉO AMPUTADA
Assim, a ausência das competições paralímpicas na tela da TV aberta é tão somente a ponta do iceberg do desafio que as pessoas com algum tipo de deficiência ainda têm pela frente, seja na esfera do esporte, do mercado de trabalho, na representação social e nos mais diversos papéis sociais. Daí a falta de sentido em, para promover a Paralimpíada, recorrer à imagem de dois atores que não têm nenhuma marca da deficiência e a construíram em seus corpos à base de manipulação fotográfica. Foi o que se viu na campanha promovida por uma revista brasileira, na qual a atriz Cléo Pires aparecia amputada, sem um braço, tendo ao lado o ator Paulo Vilhena, sem perna. Quem deve representar as pessoas com deficiência são elas próprias. E se a Paralimpíada não está na TV, esse não é um sintoma apenas da TV, mas da própria sociedade brasileira, que, apesar dos avanços, ainda os mantém invisíveis.

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