A morte e a riqueza de Otávio Frias Filho


Rogo para que o bicho intolerante que habita cada vez mais brasileiros saia de cena diante dessa notícia. Frias Filho sempre foi, entre os publishers brasileiros, o mais arejado, pluralista, desapegado de ideias e posições retrógradas. Como apaixonada que sou pelo jornalismo não vejo, além dele e de João Moreira Salles com o projeto (revista) piauí e o apoio a vários projetos jornalísticos, ninguém tão aglutinador de pessoas de todos os espectros ideológicos. A riqueza dos dois está para além dos bilhões dos seus respectivos patrimônios. Banqueiros e publishers, vejam só, podem ser sujeitos inteligentes e do bem. A gente esquece, mas nem todo rico é filho da outra e nem todo pobre é gente boa. Olhem um bocadinho para as exceções ao seu lado.
Sempre gostei dos escritos de Otávio (esses estarão sempre aí, vivos), dos seus livros de sentimentalidades pessoais, digamos. Leiam um texto recente e necessário dele sobre o jornalismo, “um mal necessário”. Sua morte é uma perda imensa para o atual momento da imprensa brasileira. Temo que seu sucessor frente à Folha não mantenha o jornal com a pluralidade de vozes que tem. Para seus críticos, uma outra perspectiva: a Folha é ôbaôbista? Faz ôbaôbismoo editorial ao dar espaço à direita e à esquerda, só dar coluna ao MBL e ao MSTS? Isso deveria ser louvado. Ah, milhões de vezes ela, a Folha, que é e era Otavio, que é plural é eclética, marcas de Otávio, que seu concorrente quatrocentão, pesadão, feioso, carrancudo, e que louva o conservadorismo, o atraso, que lambe e sempre lambeu os pés dos radicais. Sim, gosto muito da Folha. Gostava muito de Otávio, embora seja pecado admirar intelectualmente um rico nesse país.
Veja o quão pesadões são os irmãos Marinho, por exemplo. O quanto “Otavinho”, apelido que o distinguia do Otávio pai, também já morto, sempre soou leve perante os pares do Jardim Botânico e dos Mesquitas do Estadão. Sejamos civilizados diante da morte do Frias que sacudia a Folha todo dia e apanhava todo dia da extrema-esquerda e da extrema-direita. Acho, e posso achar tudo, pois sou livre de facções partidaristas, que a imprensa brasileira perdeu um de seus cabeções. E tão cedo. Morrer aos 61… Que seu sucessor não tire a linha editorial da Folha dos trilhos. Muito ainda há a ser dito sobre a gestão de Otavinho, o filho.
Até bem pouco tempo, dizia-se que o brasileiro era alienado, como sinônimo de não informado sobre política, uns desideologizado. Éramos uma nação de técnicos de futebol, de carnavalescos. De repente, colocou-se não sei o quê na água de todo mundo, o futebol desandou, a melodia do carnaval perdeu a graça e o país tornou-se uma nação de tiranos, de esquerda e de direita. Não sabemos de porra nenhuma das coisas como elas são nas alcovas alheias, mas nosso esporte favorito é xingar, ofender, os vivos, os mortos, quem fala, quem cala, mas principalmente o jornalismo e os jornalistas.
Marxistas de carteirinha estão subindo em cima das mesas virtuais para celebrar e brindar a falência da editora Abril. Quem se importa que milhares de jornalistas e de tantas outras categorias profissionais estejam agora sem emprego por conta disso? O importante é linchar e esquartejar a família Civita e os jornalistas da Veja. A violência brasileira mata 65 mil pessoas por ano? Ah, mas nenhum de nós, nem o povo brasileiro, tão bom, tão cordial, nem os homens públicos em quem votamos, não, ninguém tem responsabilidade nenhuma sobre isso. De quem é a culpa? Da Globo, não é óbvio? Não foi a Globo, a Veja, a Abril, a Folha, que colocaram uma pistola na nuca do PT e o obrigaram a formar uma família com Maluf, Cunha e Temer? Por que Lula está preso? Ora, por ação de um tal de PIG. Politizados de plantão, por favor, respirem fundo e hoje, desestimulados pela notícia de sua morte, resistam e não ofendam Otávio Frias Filho. Rimem a cantilena já gasta do PIG com outras circunstâncias. O herdeiro dos Frias tinha mais qualidades, todas conhecidas, que defeitos, pouco sabidos.
Contenham, portanto, o reacionário ordinário que há dentro de você e que só sabe repetir os clichês dos anos de chumbo contra a imprensa. O tempo não está para arroubos de intolerância com os mortos que farão muita falta nesse oceano de mediocridade e incultice em que estamos mergulhados, já com o nariz e os olhos encobertos pelo lodo. Otávio era bacana. Cuspam suas frases desnecessárias em silêncio. Alguns, literalmente, aproveitem para refletir sobre suas bobagens, enquanto preparam os acepipes de suas cozinhas, privadas ou comerciais. Como diz meu pai, que carrancismo é esse?
Que Otávio descanse em paz e que quem fique em seu cargo continue com o ôbaôbismo da Folha. Viva eles: Otávio, seu sucessor no comando da Folha, o jornal, e o jornalismo brasileiro, que EXISTE, sim, para além dos guetos que se arrotam progressistas, independentes, mas cuja independência não passa da página 2 e a gente sabe muito bem quem paga.

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