Marielle continua


Conhecemos Marielle há 518 anos. Ela estava entre os índios que resistiram aos invasores portugueses que desceram na praia naquela tarde de abril de 1500, porque não aceitavam perder as terras que receberam dos pais e deixariam para os filhos. Não aceitaram a conversão imposta para um Deus estranho; não se deixavam escravizar; tentaram impedir que suas florestas fossem destruídas, suas filhas, violentadas.
Ela estava entre os negros que se revoltavam, ainda na África, contra o sequestro que sofriam, rebelavam-se durante as travessias do Atlântico nos malditos navios negreiros. Estava entre todos os que morreram lutando contra as argolas, as algemas, os pelourinhos, o trabalho forçado, as chicotadas, os assassinatos tolerados pelo sistema judiciário; e contra a trágica mancha vergonhosa da escravidão.
Reconhecemos Marielle sob o nome de Zumbi e cada um de seus guerreiros, também Gama e Nabuco e muitos outros que deram seus anos de vida e a própria vida na luta pela abolição; lutaram pela liberdade e pelos direitos dos negros, e para que, além da liberdade, tivessem um pedaço de terra onde trabalhar e uma banca de escola onde seus filhos pudessem estudar. Marielle esteve presente na luta de cada camponês pela reforma agrária, sempre adiada; ao lado de cada líder assassinado na luta pelo direito à terra; e dos que resistiram à migração necessária para as grandes cidades. O rosto de Marielle esteve presente entre os primeiros moradores das periferias a que eles deram o nome de favela.
Marielle estava presente ao lado de Tiradentes e dos inconfidentes, lutando pela independência. Ela fez parte dos revolucionários de 1817 e 1824, em Pernambuco, fuzilados ou enforcados no cadafalso; da mesma forma que, 200 anos depois, ela foi assassinada na calada da noite, por assassinos escondidos covardemente dentro de um automóvel ao lado.
Marielle estava ao lado de Chico Mendes, irmã Dorothy, Rui Frazão e outros que enfrentaram as armas no Araguaia. Estava com Herzog, Manuel Fiel Filho, com cada um dos que sofreram tortura, exílio, prisão, ao longo de duas décadas da história do Brasil; ao lado dos que caminharam em manifestações contra a ditadura, por “tortura nunca mais”, pela democracia, por eleições diretas. Ela assistiu à morte de Jonas e Ivan, em março de 1964, em Recife, e de Edson Luís, em março de 1968, no Rio de Janeiro. Marielle está entre todos os que lutam contra a corrupção na política, especialmente quando a corrupção vem dos próprios aliados.
Marielle faz parte, há 518 anos, dos que desejam e lutam para que os filhos dos pobres estudem em escola com a mesma qualidade dos filhos dos ricos; dos que batalham para que a economia brasileira sirva a nosso povo com a necessária eficiência e equidade; dos que combatem os governos demagógicos e irresponsáveis que condenam o povo à carestia da inflação; dos que lutam contra a destruição ambiental, para que nossos rios sejam bem cuidados e nossas florestas protegidas da voracidade do capitalismo selvagem ou do socialismo míope.
Há décadas, o rosto de Marielle está entre os travestis e gays maltratados nas ruas de nossas cidades ou assassinados pela intolerância dos preconceitos. Ele está entre os evangélicos que, no passado, sofreram perseguição, e entre os atuais praticantes de cultos afro-brasileiros, perseguidos, inclusive, por evangélicos sectários.
Marielle vive há séculos e continuará viva, porque sua chama não se faz de carne, mas de ideias, de valores morais, de princípios, de compromissos. Ela faz parte de um seleto grupo de mártires e militantes incorruptíveis, que levam suas lutas às últimas consequências, seja ao risco de morte, seja ao risco de incompreensão em vida. Ela vive em sua biografia de grande mulher e na história de um país que sonha virar uma nação; ela vive ao lado de todos os que participam do progresso moral da civilização, a partir deste pequeno pedaço da humanidade chamado Maré, na sofrida Rio de Janeiro, do injusto e ineficiente Brasil.
Ela vive porque, no mesmo instante em que quatro balas tiraram sua vida, milhares de outros, no Brasil e no mundo, despertam e gritam “Marielle, Presente, Nós Estamos Aqui”, reafirmando a luta pela democracia, contra a injustiça, a favor dos pobres, analfabetos, negros, mulheres, doentes, crianças, idosos, desempregados, desesperados, todas as vítimas de preconceito. Continuaremos a luta pela qual ela e tantos outros há 518 anos dão a vida e não morrem jamais.
Fonte: Cristovam Buarque

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