Helicoca para estrangeiros

Quando mais o tempo passa, e eu me esbaldo na maravilha que é viver em Portugal, mais perco a minha capacidade de entender o que acontece na República Surrealista do Brasil.
Tentar seguir as noticias, até tento. Acompanho-as em jornais online e comentários no Facebook. Ontem, para me ajudar, a televisão portuguesa dedicou longos minutos às passeatas. Assisti o noticiário ao lado de amigos lusitanos e não consegui explicar-lhes que, sim, no meu país está tudo errado e o que nós, os cidadãos, queremos se resume a duas palavras: limpeza ética.
Se eu, que vivo um cotidiano civilizado, já não aguento mais, imagino os meus amigos precisando cumprir agenda num lugar onde 99,8% do Congresso Nacional é corrupto; o Lula, condenado, faz a seu bel-prazer campanha eleitoral antecipada; o presidente da República não é flor que se cheire – ou não teria sido vice de uma chapa do PT -; os políticos, impunemente, desviam dinheiro da nação e não se pode confiar nem no Supremo Tribunal Federal.

Todo este papo é porque uma colega francesa do meu curso de Corte&Costura – está indo, gente, qualquer hora termino o vestido de vidrilhos e babados, que é a minha prova final – perguntou-me se, no Brasil, helicoca é palavrão. Demorei a entender, claro. Até ser informada que uma juíza do Distrito Federal – omito o nome dela porque sou burra, mas não sou boba – proibiu esta palavra de ser pronunciada ou publicada.
Custou-me um pouco perceber a curiosidade da companheira de plumas e de paetês. Fiquei parada, sem saber o que responder, já que decifrar o patropi é coisa para profissionais. Minha amiga jamais entenderia a verdadeira história do helicoca. Aqui, em Portugal, quem ousasse contrabandear 445 garrafas de Coca-Coca litro – que, após diluídas, renderiam (se é que não renderam) cerca de 2 225 litros de Coca-Cola capazes de proporcionar um lucro de 14 milhões de Reais, mais ou menos 3 milhões e setecentos mil Euros (conta por especial obséquio do Tio Google) – iria amargar uma longa e penosa cadeia.
Resovi mentir, há situações em que o melhor é inventar algo extraordinário, totalmente sem pé nem cabeça. A chance de sermos aceitos é muito maior. Pausadamente, relatei à francesa que, no Brasil, é proibido tomar Coca-Cola, pois, está provado, o refrigerante prejudica a saúde. Nossa medicina socializada e de vanguarda, sempre preocupada com o bem estar do povo, prefere prevenir a remediar. Assim, após inúmeros casos de perfurações gástricas motivadas pela ignóbil bebida, o governo a proibiu.
O que não impede que exista um volumoso contrabando de Coca – não, não me comprometa, você entendeu errado, abreviei para facilitar o relato, estou falando de Coca-Cola, a bebida, por favor. Enfim, e como eu ia dizendo, o caso do helicoca, agora palavra malsã, é emblemático. Em 2013 – a novela é antiga, minha filha -, um helicóptero caiu no interior do país carregado com quase 500 litros de Coca-Cola. Embora a aeronave acidentada tenha dono registrado em cartório, ainda não se conseguiu provar a quem ela pertence. Já viu, não é? Imediatamente, bocas malignas jogaram a culpa em cima de alguns políticos. Felizmente, em boa hora, uma juíza proibiu que esta campanha difamatória prosseguisse. Entendeu?
Não entendeu? Ah, desculpe, acabei não explicando o principal: os brasileiros apelidaram o helicóptero repleto de refrigerantes de helicoca.
Somos um povo bem humorado, este nome não é engraçado?

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