Enguias, de novo


Voltou a temporada das enguias, cobras marítimas de péssima aparência que, aqui em Portugal, são consideradas iguarias finíssimas.
Ano passado, no afã de ser uma verdadeira lusa, resolvi comprar enguias como elas devem ser compradas: vivas. Claro, as danadas me derrotaram. Acabei levando pontos na testa e fiquei traumatizada até a próxima encarnação. Acho que as minhas enguias pressentiram que não consigo matar nem mosca. Da pia, onde estavam de molho em água com vinagre, saltaram no chão da minha cozinha e me atacaram. Sim, atacaram-me, podem acreditar. Talvez tenha dado azar e comprado enguias mau caráter, não sei. Mas o fato é que acabei enfiando a cabeça no armário. Bem, já contei essa história em outra crônica.
Andava eu posta em sossego, cada vez amando mais o meu jardim da Europa à beira-mar plantado, cuidando de bainhas e chuleios, quando, semana passada, convidaram-me para um almoço. No cardápio, enguias. Novidade que soube quando me sentei à mesa. Claro, havia um segundo prato, o pessoal aqui é first class. Ninguém impõe enguia a ninguém. Mas a dona da casa, a gracinha em pessoa, perguntou-me se gostaria de provar um pedaço. Tentei não lembrar a minha trágica experiência, banquei a civilizada e aceitei “um pedacinho”, que comi em nanopartículas pensando em anjos, arcanjos, querubins e sefarins para não encarar a realidade: havia um pedaço de cobra no meu prato.
Só que o auto hipnotismo não funcionou. À minha volta, as pessoas dissertavam sobre variadas receitas de enguias. As frases se atropelavam, entravam por meus ouvidos, entalavam na minha garganta: “com cuidado, o sangue não coagula”, “uso as ovas, são muitas, para fazer o molho”, “não é
um peixe, é um parasita que se alimenta do sangue de outros peixes”, “como é gordurosa, tem que limpar muito bem”, “nunca retiro a pele”, “gosto mesmo é das ventosas”.
Subitamente, milagre: um pequeno pedaço de enguia desandou a crescer no garfo. Tomou a forma de monstro e se mexeu. Encarou-me com jeitão vitorioso, enfrentou-me, ameaçou me atacar outra vez.
Gente fina é outra coisa. Olhei para a dona de casa com ar de misericórdia tão grande que, imediatamente, ela me soccorreu. Trocou o meu prato, tratou de mudar o assunto e me ofereceu o mais delicioso bacalhau que jamais comi.
Se, a cada vez que servirem enguias, servirem também o bacalhau na broa da senhora dona Adelaide, o mais saboroso de aquém e além mar, acho que vou passar a adorar enguias.
Mantendo a devida distância, mas vou…

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