E o palhaço, quem é?


Duas notícias amplamente veiculadas nos últimos dias dão ideia do quanto o eleitor é abestado, para usar uma palavra do vocabulário de uma das personagens políticas da semana, Tiririca. Palhaço profissional, Tiririca está em seu 7º ano na Câmara dos Deputados, no penúltimo ano do seu segundo mandato, após ser eleito em 2010 e reeleito em 2014, sempre por São Paulo e nas duas vezes com mais de um milhão de votos. Em seu primeiro, único e provavelmente último pronunciamento na tribuna da Câmara, o deputado palhaço anunciou que vai sair da vida pública.
Não, Tiririca não renunciou ao mandato, afinal de bobo ele não tem nada e nunca confundamos desescolarização com falta de esperteza. O que o palhaço quis dizer foi tão somente que não vai se candidatar mais uma vez nas eleições de 2018. Ao fazer tal anúncio, Tiririca evocou a idiotia de parte do povo brasileiro, que achou a coisa mais linda do mundo ouvi-lo dizer que sairá do Congresso envergonhado, chateado e triste. O tal desabafo foi considerado, nesses tempos em que todo mundo precisa de um herói por 24 horas para elogiar nas redes sociais, um primor de representatividade dos sentimentos do povo e do eleitor. Faltou pouco para um #somostodostiririca.
Bolsonaro
Na mesma semana, a imprensa noticiou que Jair Bolsonaro, outra personagem elevada à condição de herói pelos defensores da volta do militarismo e sempre a ressaltar que é incorruptível, empregou em seu gabinete ninguém menos que a própria mulher, a terceira e atual. E só a exonerou por força da decisão do Supremo quanto à ilegalidade de nepotismo na administração pública. No período em que foi empregada do próprio marido e paga com dinheiro público, Dona Michele foi promovida, o que triplicou o seu salário em relação ao que recebia no emprego anterior, também na Câmara dos Deputados, na liderança do PP, então partido de Bolsonaro.
O presidenciável tem gosto pelo nepotismo. Antes de empregar Michele já havia empregado parentes de sua segunda mulher, Ana Cristina Vale, que era também empregada na Câmara, em gabinetes de correligionários, constituindo o que se chama de nepotismo cruzado, quando parlamentares empregam parentes dos pares entre si para driblar a lei. Um dos filhos do deputado também já teve emprego na Câmara. Todos exercendo cargos de confiança.
Circo
Quando Tiririca diz que tem vergonha da Câmara e dos deputados e todo mundo acha lindo, a pergunta que emerge é: e de si mesmo, o palhaço não tem vergonha? De passar 8 anos na Câmara, beneficiar-se de todos os direitos do mandato, permanecer mudo durante todo esse tempo, não participar de debate nenhum, nada fazer e ainda usar dinheiro da casa para pagar passagens para ir fazer alguns dos seus shows pelo Brasil? Qual a razão que alguém tem para aplaudir Tiririca por sua fala pseudo-envergonhada? Se o Congresso causa vergonha ao país, Tiririca é também um dos motivos para isso. Façam as contas e vejam quanto ele custou ao Brasil, valores corrigidos, durante 8 anos de mandato e com direito a assessores, verba de gabinete, passagens aéreas, combustível, correspondência, ajuda de custo para moradia e todo o kit parlamentar.
Diante da vergonha cômoda expressada por Tiririca dirigida à Câmara, e não à própria atuação nula, e da prepotência dos bolsominions ao justificarem a preferência pelo pseudo-impoluto deputado militar, prevalece mesmo é a certeza de que, no circo da política brasileira, palhaço mesmo, e dos ruins, é o eleitor. Não basta eleger os mesmos tipos e pelas mesmas razões. É preciso autoenganar-se a cada eleição, vestindo os piores tipos com roupas de heróis por qualquer bobagem que digam.

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