22 de fevereiro de 2024
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E agora, José?

Foto: Rede Globo (divulgação)

Perto de completar 68 anos e dono do posto de maior pegador, em cena, da teledramaturgia brasileira, o ator José Mayer dormiu galã, mesmo prestes a ceder o cetro e o trono para outros mais jovens, e acordou na condição de Geni, a moça da canção de Chico Buarque, aquela a quem todo mundo quer apedrejar. No mesmo dia em que foi ao ar o último capítulo de uma novela, aliás, ruim de doer, na qual Mayer dividia e antagonizava o lugar de protagonista com Reynaldo Gianecchini, o ator saiu do primeiro escalão da Globo para entrar no inferno pessoal e profissional. Mayer assediou e constrangeu uma figurinista da Globo  durante oito meses, até o dia em que ela chutou o pau da barraca e escreveu e publicou um texto, num blog da Folha de S. Paulo, contando tudo, inclusive que ele metera a mão em sua vagina em público e a chamou de vaca, também em público, por ela ter deixado de cumprimentá-lo.
Embora José Mayer esteja vivo, vivíssimo, é um galã morto e, consequentemente, deduz-se que seu papel na história das telenovelas daqui para a frente será o de um ator aposentado. Em tempos de redes sociais, prints de tudo e impossibilidade irrestrita de retratação, perdão ou algo que o valha, não há volta. Perdeu, playboy. Há uma semana, Zé Mayer era um homem invejado por muitos, e, mesmo quase setentando, ainda era desejado por e objeto de fantasias sexuais para milhões. Além de ser um dos maiores cachês salariais e publicitários da Globo. Hoje, é um homem execrado, praticamente por unanimidade. E, além de tudo, está só, pois se há algo que chama a atenção nesse episódio é a sua solidão quase absoluta.
QUENGA – Diante da fama que tinha, das décadas de carreira respeitada, do status privilegiado que usufruía, tanto em parte do imaginário feminino quanto no cast da Globo, e sobretudo, levando-se em conta o boeing que é a emissora em termos quantitativos de empregadora da classe artística, é surpreendente o quanto Mayer está só. Até o final da semana em que foi empalado e assado pelas labaredas do inferno que queimaram sua reputação, somente CINCO pessoas vieram a público para ensaiar alguma defesa, e mesmo assim tímidas e pouco enfáticas, do intérprete de Tião Bezerra, seu último personagem, da boca de quem jorravam, em praticamente todas as cenas, palavras que arranhavam os ouvidos, tamanha a frequência com que eram usadas e tamanho o quilate ofensivo delas, até mesmo quando se sabia que era uma obra de ficção. Quenga, vaca e vagabunda eram os adjetivos preferidos de Tião para interpelar Magnólia, a vilã inconsistente que Maria Adelaide Amaral criou para desperdiçar o talento de Vera Holtz.
Os cinco defensores de Mayer foram pouco enfáticos e talvez só tenham chamado alguma atenção por terem ido na contramão da multidão: os atores Caio Blat e Oscar Magrini, a atriz Maitê Proença, o ex-todo poderoso da Rede Globo e um dos responsáveis pelo mítico “padrão Globo de qualidade”, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, e a mulher do ator há 45 anos, Vera Fajardo. A defesa mais compreensível, e simultaneamente a mais anacrônica, foi a de Boni, que, à imprensa, declarou considerar apelação e sensacionalismo o que a Globo fez com Mayer no telejornalismo da casa, principalmente no Jornal Nacional. Para ele, o caso deveria ter sido tratado pela empresa como assunto interno,  jamais como objeto de uma reportagem de seis minutos no JN.
SOFÁ – Sobre o que leva a mulher de Mayer a anunciar que, após o episódio, seu casamento está mais sólido do que nunca, a opinião pública só pode conjecturar, já que cada casal inventa sua própria forma de manter ou não de pé a quarta perna quebrada que sustenta a mesa conjugal entre quatro paredes. Blat, Magrini e Maitê têm razões afetivas e pessoais, cara a tapa e pontos de vista na vida para dizer o que disseram e estão pagando o preço nas redes sociais, onde fica a inquisição repaginada do Século XXI. Já traduzir a reação Boni só requer dois neurônios e ausência de inocência. Um homem de 81 anos, que ficou à frente da Globo de 1967 a 1997, fala para um público que não existe mais e dá pitaco num jornalismo que já não pode ser como era o do tempo de Boni.
Não, Boni, a Globo não foi sensacionalista nem apelou. Em 2017, o teste do sofá não é só uma armadilha cafona para quem a arma. Hoje isso atende por assédio e é crime. Nos tempos de Boni, ninguém duvida que na Globo e em qualquer lugar passavam-se mãos e muitas coisas mais. Em alguns casos, o espírito do tempo tornava isso um jogo sexual consentido. Em outros, a mulher que ousasse pensar em reclamar era desencorajada a fazê-lo, pois sabia que faria parte do pacote de efeitos colaterais contra si não apenas ver seu caso ser tratado como interno, mas ter sua carreira implodida. Se nem Bill Clinton escapou da própria armadilha sexual em que se meteu, quem é Zé Mayer na fila do espírito do tempo para sair ileso?
A reputação acabou. E agora, José?

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