30 de maio de 2024
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Drama

Acho a língua espanhola muito dramática. Ninguém tem uma “gripezinha”. Quem dá dois espirros logo alardeia ter catarro. Corte no dedo? Um pique errado do alicate de unha? Eis que começa a jorrar la sangre. Escuto com a sensação de que a pessoa está morrendo de hemorragia porque, convenhamos, la sangre sangra muito mais do que o nosso discreto sangue.

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Perdi o ar quando soube que os passarinhos espanhóis não ficam em gaiolas penduradas em ganchinhos modestos e simpáticos. Os pobres pássaros são encarcerados em jaulas colocadas em guinchos. Como se fossem imensos pterossauros. Tener gana me arrepia, acho que vão me esganar. Não é mais simpático dizer que se está com vontade de fazer alguma coisa?
Alguém que costuma se ajoelhar nas igrejas não tem medo de, em espanhol, sair rodando descontrolado pela nave? Eu tenho. Joelho, em espanhol, chama rodilla. Nas belas catedrais espanholas evito ajoelhar. Imagino-me com duas rodinhas sem freio a levar-me para onde não quero ir. Deus me livre.
Toda esta conversa é para contar que, sábado passado, fui passear com amigos na Galícia, local muito lindo e ensolarado. De repente, topo com um açougue que, em Portugal, se chama talho. Açougue e talho são nomes corriqueiros para nós, os lusófanos. Mas claro que, em espanhol, o nome dedicado ao local em que vendem carnes e derivados tinha que remeter à tragédia.
Sim, ao menos na Galícia, açougue se chama chacineria, palavra derivada de chacina. Fiquei muda, paralisada, olhando os pedaços de carnes
pendurados e imaginando os terrores pelos quais teriam passado as vítimas expostas. Jamais tive esta sensação em açougues ou talhos. Mas, na chacineria, emocionei-me. Coitados das ovelhas, dos cabritos e dos boizinhos, tinham sido chacinados. Muertos en un charco de sangre. Como desgraça pouca é bobagem, para nós, que falamos português, os pobres foram à óbito num pântano de sangue. É que poça, em espanhol, é charco. Estou dizendo, espanhol é uma língua excessivamente dramática.
Voltei sem trazer nada da chacineria, apesar dos embutidos de dar água na boca. OK, como carne, tento não pensar no sofrimento animal, etc. e tal. Mas bicho chacinado não dá para engolir.
Mesmo sabendo que o problema era linguístico, preferi não arriscar.

O Boletim

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