Dona Diva divou

Neta de escravos emociona e faz Lázaro chorar durante Flip
Era uma vez uma anônima professora aposentada de Educação Física, Diva Guimarães, do interior do Paraná. Negra, 77 anos, neta de escravos e filha de lavadeira. Em tempos de redes sociais, 13 minutos de um depoimento seu foram suficientes para torná-la a última celebridade brasileira da última semana. Já em sua 15ª edição, a Feira Literária Internacional de Paraty, a mais importante feira de livros e de debates sobre literatura do país, não costuma terminar nenhuma de suas edições sem que o acaso tenha eleito uma musa ou um muso. Um escritor desconhecido, uma escritora com a faca na língua, enfim, autores que por carisma, talento ou senso de oportunidade, literalmente roubam a cena e se tornam a personalidade símbolo de cada edição.

Diva Guimarães na plateia da Flip
(Foto: Reprodução/YouTube/Flip – Festa Literária Internacional de Paraty)

Nesta edição da Flip, encerrada ontem, o ator Lázaro Ramos tinha tudo para sair do evento como o muso da vez, mesmo porque já entrou sob essa condição. Considerado por tudo o quanto é pesquisa como um dos atores mais poderosos e influentes da televisão brasileira, e de quebra, ao lado da mulher, Taís Araújo, representando o casal de celebridades mais influente do showbiz, Lázaro, além de ator e roteirista, vem investindo na carreira de escritor.
O ator foi para a Flip como o muso e, com todo o seu prestígio, desempenhar um papel duplo: falar sobre racismo e lançar o seu livro, predominantemente autobiográfico, “Na minha pele”. Mas, para surpresa, lágrimas e emoção do público e do próprio, quem saiu do evento com o posto de musa foi Dona Diva, a professora anônima, que, ao usar o microfone numa mesa de debates da qual participava Lázaro, intitulada “A pele que habito”, inseriu-se nas engrenagens das redes sociais e, com 13 minutos de fala, viralizou. Ou, como ela mesma disse aos jornalistas no dia seguinte: tornou-se verbo: divou. Seu depoimento, publicizado na página da Flip no Facebook, a essa altura já se aproxima das 10 milhões de visualizações.
É impossível, para quem acompanhou a trajetória do menino negro e pobre do Garcia, em Salvador, até o topo do sucesso, ver e ouvir a fala de Dona Diva, da infância no interior do Paraná à celebrização na 15ª Flip, e não associar a imagem da professora negra de cabelos brancos trançados, carregando a história do Brasil e do racismo em sua fala, ao primeiro livro de Lázaro, o infantil “A velha sentada”, cuja personagem central é uma menina de 9 anos sobre quem, de tão séria, calada, sisuda e ensimesmada, diziam carregar dentro de si uma velha sentada. Ao ver e ouvir Dona Diva narrar sua vida de menina pobre, levada por freiras de missões católicas para estudar em colégio interno, e contar que amadureceu e se tornou rebelde aos 6 anos, ao descobrir que estava na escola para trabalhar de graça e que o Deus daquele lugar era só para os brancos, vem à memória o título do livro de Lázaro.

Joana Gorjão Henriques e Lázaro Ramos ouvem relato de Diva Guimarães
(Foto: Reprodução/YouTube/Flip – Festa Literária Internacional de Paraty)

Raiva de deus
Aos 6 anos, Diva Guimarães já carregava em si a Diva de 77 anos, não sentada, mas de pés firmes no chão, convencidíssima das crueldades do mundo e afincada ao instinto de que só sobreviveria pela via da educação, proporcionada pelas trouxas de roupas lavadas pela mãe e entregues às donas por ela, desde os 9 anos, quando saiu do internato católico com muita raiva de Deus. Sessenta e oito anos depois, a musa da feira internacional de literatura mais importante do país é a menina preta que dormiu anônima e acordou tornada verbo e rainha das selfies. Não tinha nenhum texto escrito nem estava ali lançando livro. Sua narrativa era a história oral e real. Sua aparição ali foi uma epifania.
Assista depoimento:

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