Crítica teatral

Felizmente, não sou fundamentalista nem conservadora. Mais felizmente ainda, antes de fazer o meu doutorado em Corte&Costura, fiz outro em Artes&Artefatos. Sei muito bem o que digo. Assim, posso testemunhar, do alto da minha inatacável sabedoria, que assisti a peça “Velas no ânus” e não tenho palavras para elogiar tanta delicadeza, sensibilidade e inteligência.

Lamento não dizer quem são os artistas que encenam o espetáculo, cuja beleza plástica merece um registro especial: todos com fiofó para cima e uma vela introduzida no orifício (já foi difícil) anal. Mas amigos me pegaram de surpresa, colocaram-me na plateia e, agora, no afã de bem informar aos meus leitores, estou às voltas com o antivírus do computador, um medíocre, que me impede de acessar as informações no Google, afirmando tratar-se de “site malicioso” Lamentável esta tecnologia retrógrada, que conspira contra as artes cênicas brasileiras. Sou obrigada a concordar: é gópi.
Desculpo-me com os fantásticos atores e atrizes, que, com tanta propriedade, questionaram o sentido da existência humana, permeada pela escuridão. A excelência de todos retratou com fidelidade a filosofia existencialista de Keirkergaard, ao sustentar, tal e qual o filósofo dinamarquês, a importância da liberdade e da individualidade. Vejam, senhoras e senhores, do que é capaz uma vela estrategicamente colocada em local não ortodoxo: cada luz que brilhava indicava-me à mim, intelectual titulada pela Universidade da Bratislávia, a noção de que eu – ou apenas a minha individualidade enquanto pessoa – sou e serei sempre a única responsável a dar completa significância à vida.
Elogios especiais à iluminação de Agripino das Candongas que, trabalhando com contraluz, delineou apenas os traseiros, deixando a mensagem principal, as velas, destacarem-se por sua cintilação. Um e outro quase acidente não empanaram o brilho da apresentação, mas alerto ser necessária a presença de extintores, já que flatos inoportunos ameaçaram incendiar vários candelabros humanos.
Não é demais comparar o impacto do silencioso, mas iluminado drama, às tragédias de Shakespeare. Além de ânus, que todos temos, a universalidade do tema, a força com que foi tratado, remete-nos – por quê não? – a Hamlet e às suas angústias. Parafraseando o bardo e usando a bunda, a peça dialoga com as nossas zonas sombrias: acender ou não acender?
Recomendo vivamente a encenação do próximo fim de semana: os atores prometem usar velas de sete dias.
A não perder.

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