Coco Chanel by Lucia Sweet


Sentada em frente à lareira, observo o fogo a dançar entre as achas. A noite está gelada, a lua, linda, ainda crescente. Estou escrevendo, essa mania que tenho, na torre de marfim que construí na minha mente, para me proteger. São lembranças e reflexões para o meu livro, uma ficção autobiográfica. Posto para distrair ( I hope!) meus amigos mais um excerto, dessa vez sobre a Chanel. Poucos conseguem imaginar o grau de sofisticação em que algumas pessoas de extremo bom gosto vivem, principalmente nos dias atuais em que se valoriza o dinheiro acima de tudo. Sem cultura, gastar dinheiro é uma tragédia de falta de gosto, ostentação e vulgaridade. Boa noite de sábado.
Excerto do livro — copyright Lucia Sweet
Coco Chanel, que deveria contar nesse tempo mais de oitenta anos, foi a maior celebridade da moda deste século. Eu a imagina­va uma alegoria esbelta e alada a tocar trombeta, o anjo extermi­nador do mau gosto. A pobre menina órfã que ainda muito jovem fora protegida por alguns dos homens mais ricos e poderosos do seu tempo, tornara-se a dona de um império que lhe rendia algumas centenas de milhões de dólares por ano. Ela, que superara todos os desafios, tinha vergonha de suas origens humildes e passou a vida tentando ferozmente escondê-las. Vencera tudo, menos o seu passado.
Chanel revolucionou o mercado ao encerrar em um frasco o aroma chamado “Numéro 5”. Naquele tempo as mulheres se perfuma­vam com “Mille et Une Nuits”, “Lucrèce Borgia”, “Coeurs en Folie”, “Nuit de Chine”, “Rêve d’Autonne”, que rescendiam a gardênias, jasmins, almíscares da Indochina e rosas búlgaras. A imperatriz da Rússia fazia cultivar violetas em Grasse, no sul da França, para que o perfumista favorito da corte preparasse sua essência imperial exclusiva. Na Inglaterra, as mulheres da família real britânica usavam, desde 1829, um perfume que se chamava “ess-bouquet” e que tinha em sua fórmula âmbar, essência de rosas, musgo, jasmim, violeta e flores de laranjeira. Por sua vez a soberana da Holanda gostava de água de Cologne e a rainha da Rumania preferia o aroma do heliotrópio branco.
Ao misturar pela primeira vez essências de origem animal com extratos vegetais e fórmulas sintéticas, Coco Chanel criou um perfume estável, indefinível, diferente e delicioso. Cerca de oitenta ingredientes faziam parte da composi­ção do “Numéro 5”.
– “Não tem futuro a mulher que não usa perfume” – Chanel costumava dizer.
A incrível lenda do “Numéro 5”, que se tornou o mais célebre perfume do mundo, nasceu em Nova Iorque, na primeira entrevista que Chanel concedera à imprensa ameri­cana após a guerra. Ensinara, então, a sedutora Coco, que uma mulher deveria perfumar seu corpo onde gostaria de ser beijada. Pouco tempo depois, um jornalista entrevistava Marilyn Monroe:
– “O que você veste de manhã?”
– “Saia e blusa.”
– “E ‪de tarde‬?”
– “Outra saia e outra blusa.”
– “E de noite?”
– “A mesma coisa, em seda.”
– “E o que você usa para dormir?”
– “Cinco gotas de Chanel Número 5”.
Um filósofo poderia dizer que as roupas desempenham desígnios mais importantes do que nos aquecer e vestir e que servem para outros intentos não tão frívolos. Para as vítimas da moda, são as roupas que nos usam e não nós que as usamos.
Naquele tempo, eu via o mundo de acordo com o que estava vestin­do e acreditava que a opinião do mundo a meu respeito se encontrasse sob a mesma influência. E no mundo que conhecia, todos tinham razão e igual­mente se enganavam. Ninguém queria escutar o outro e, porque as pessoas monologavam, não havia discórdia. Fetichis­ta, os tecidos eram, para mim, instrumentos mágicos e flexíveis que sugeriam e provocavam. Tornava-me sexy de preto e refinada de bege e rosa. Da mesma forma que um belís­simo carro esporte ou uma casa deslumbrante, as roupas signifi­cavam conforto e bem-estar, prazer sensual e divertimento.
Por Lucia Sweet, copyright Lucia Sweet

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