8 de agosto de 2022
Ligia Cruz

Eike, o mito de si mesmo


Lamentável o papel de jornalistas da chamada grande imprensa carioca ao relatar fatos sobre a prisão de Eike Batista, nesta semana. Em programa televisivo da tarde, em tom de simpatia, debatedores concordaram que nas redes sociais há uma “certa condescendência e admiração” pelo empresário. Até compaixão pela excessiva exposição na mídia.
É certo que ele não desperta nenhum ódio visceral como outros do naipe, que estão presos por corrupção. No entanto Eike sempre quis os holofotes e não perdeu a oportunidade de mostrar uma face arrependida de quem errou e merece perdão. Farsa.
O ex- governador do Rio, Sergio Cabral, o bacanudo de outrora, foi desmascarado pelas investigações e reconhecido como chefe de quadrilha de uma grande organização criminosa de lavagem de dinheiro.  Ele depauperou o estado do Rio de Janeiro e provocou uma monumental falência, como poucas no país. Eike, com toda sua candura, mantinha relações com Cabral.
Em outra publicação em mídia social, um depoimento conciliador de um empresário atesta que é difícil ser empreendedor no Brasil sem se envolver em situações escusas. Um salvo conduto para sobreviver num mercado competidor. Isso não é novidade, mas publicar e justificar atos corruptos não dá. Que sempre houve “troca de favores” entre iniciativa pública e privada para obter financiamentos do BNDES sabemos. A alternativa é captar recursos com bancos privados e se arrebentar em condições extorsivas. Ninguém regula o sistema financeiro no país; ele manda e desmanda na vida do brasileiro. Mas no caso de Eike isso nunca foi problema. Na verdade ele sempre “namorou” com o poder – e teve muito êxito com os petistas – e a fama.
Antes de virar troça por perder a peruca, a vaidade e a liberdade, ao ser preso por indícios de crimes de corrupção, durante a Operação Eficiência, ele teve seu tempo de herói mítico. Casou-se com modelo global, criou uma holding com perto de 20 empresas, entre as quais o Hotel Glória, um ícone carioca e chegou a ocupar o posto de homem mais rico do Brasil e o oitavo lugar no ranking mundial da Forbes, com uma fortuna estimada em US$ 3 bilhões. Isso em 2012.
Seu império incluía empresas em setores estratégicos da economia, como mineração, gás e petróleo, energia, logística, transporte, indústria naval e outras. E sempre teve interesses pessoais nababescos. Ele foi dono do maior iate do Brasil, o “Sirit Ferretti”, de mais de 35 metros de comprimento e 900 m² de área interna; de frota de jatos; de carros esportivos e caros e tudo o que seu dinheiro e gosto por excentricidades podiam comprar. Foi até considerado o “orgulho do Brasil” pela ex-presidente Dilma Rousseff (sic).
Um ano depois, em 2013, seu império começou a desmoronar e sua colocação foi para o 100º posto. Em 2014 seu nome já figurava no 1.645° lugar da lista, com um passivo de US$ 1 bilhão. Teve que se desfazer de bens e os principais motivos foram o desempenho das suas empresas, em especial a OGX, empresa de petróleo e gás.
Ele não é só um sujeito simpatiquinho, mas inteligente, voraz e grande manipulador. Sabe posar em cena e capitalizar sentimentos diversos. Foi considerado até “humilde”, ao ser conduzido passivamente ao presídio carioca do Bangu, com a cabeça raspada, baixa e um tristonho olhar dependurado. Malandro também chora. E uma piadinha na rede social arrematou:”ele só esqueceu de comprar o diploma”
Há pouco mais de um ano, em maio do ano passado, antevendo tempestades e já sem toda a pompa de empreendedor arrojado, ele se apresentou espontaneamente ao Ministério Público Federal e admitiu ter feito depósitos secretos ao marqueteiro do PT, João Santana, a pedido do ministro da Fazenda, Guido Mantega. Derrubou o ministro e livrou-se da cana, na 34ª fase da Lava-jato. Bem ao estilo “antes ele do que eu”.
Na ocasião ele falou sobre os contratos de construção das plataformas de petróleo P-67 e P-70, vencidos pelo Consórcio Integra Offshore, formado pela construtora Mendes Júnior e OSX Construção Naval (empresa de sua holding) – os negócios remontaram a US$ 922 milhões, em 2012.
As empresas de sua holding, destacadas com a letra “x” no nome, desde 2003 estiveram envolvidas em concessões de dinheiro público, via BNDES.  Ele mesmo chegou a declarar à justiça de Curitiba, que o banco é “uma área crítica” do governo. “Você bota o que quiser como garantia: uma fazenda que não vale nada; e o cara avalia por um trilhão de dólares. É fácil né?”. De 2003 a 2014 seu grupo foi beneficiário de R$ 10 bilhões, dos quais R$ 6 bilhões foram contratados, grande parte para a implantação de indústrias termelétricas. Eike afirma que deu todo seu patrimônio em garantia, nos mesmos moldes que descreveu. A caixa preta é grande demais.
O BNDESpar adquiriu debêntures das usinas termelétricas de Eike, no valor de R$ 70 milhões em oferta pública em 2010, quando cada ação valia     R$ 23,00. Em 2015 valiam R$ 0,16. Esse prejuízo os cofres públicos absorveram e estamos pagando nesse mar de lama que o país se tornou.
Em sua trajetória ambiciosa o dono das empresas “X”, perdeu-se completamente. Uma biografia que vai entrar para a história com deméritos. Ele não é legal, nem bonzinho, é mais um negociador frio que só olha para o próprio umbigo e ri quando está só.

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

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