A paz que não vem

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Mesmo com todos os esforços das forças de paz da ONU para acabar com a sangrenta guerra da Síria, muito distante parece estar o seu fim. Em entrevista a um jornal russo, o presidente do país Bashar al-Assad, afirmou nesta sexta-feira, dia 14 de outubro, que “é preciso seguir limpando Aleppo e empurrar os terroristas para a Turquia, o local de origem deles”. Isso contrapõe os interesses de todos os atores envolvidos no conflito, pró e contra o governo e seus aliados.
Mitos, mentiras, jogos de interesses regionais e de potências estrangeiras permeiam esse capítulo sanguinário da história em que nenhum lado é necessariamente bonzinho.  Todos têm motivações para matar sem pejo, quer seja para demarcar influências no território, preservar mercados, como para evitar a extensão do conflito para além das fronteiras sírias, o que poria em risco o tênue equilíbrio geopolítico regional e mundial, pelo perigo de uma guerra global onde todos perderiam.
A indústria da guerra marca seus pontos também. Por mais impiedosa que seja, gera divisas para os países que vendem armamentos. Lucra-se ainda com as pilhagens e toda a estrutura envolvida num conflito dessa dimensão, que já perdura por seis longos anos. Uma vida inteira para muitas das vítimas.
O Ocidente, liderado pelos Estados Unidos, viu fracassar nos primeiros dias deste mês de outubro a última tentativa de coalizão de paz junto com a Rússia, opositores nesse conflito. Embora aos olhos do mundo tentem a diplomacia via Genebra, sempre há aquele caldo rançoso da Guerra Fria vertendo nas negociações. Vladimir Putin tem um interesse mais importante do que defender o aliado Assad dos ataques do Estado Islâmico. Preservar a base naval no Mediterrâneo, um grande bônus pelos serviços prestados por Assad.
Por isso, nem os americanos, nem os russos economizam ao demonstrar o poder bélico, que azeita as engrenagens de suas economias. Somam-se a estes os parceiros de cada lado e arma-se o espetáculo de horrores com bombardeios em áreas civis, como Aleppo, hoje em ruínas, onde supostamente estariam tocaiados os rebeldes. Estes migram, mas a população não; permanece na sua dor, tentando enterrar seus mortos.
Assad combate perto de mil grupos rebeldes, dentre eles radicais islâmicos da Al Qaeda e Estado Islâmico, além de curdos e outros. A favor dele, combatendo os grupos extremistas está a milícia libanesa Hezbollah. A vizinha Turquia se defende como pode e tenta proteger suas fronteiras para não perdê-las para os curdos, apoiados pelos americanos.
As potências estrangeiras como Estados Unidos, França, Canadá e Reino Unido justificam suas presenças na Síria para combater o Estado Islâmico e, óbvio, dar um empurrãozinho para a derrubada do governo de Bashar al-Assad, aliado histórico do Kremlin, proclamado ditador. Durma-se com um barulho desses.
Nesta semana foram lançadas bombas de cloro contra prováveis rebeldes e os hospitais de campanha se encheram de civis com problemas respiratórios. Os outros atores envolvidos na guerra síria são Arábia Saudita e Irã, beligerantes históricos, que não cedem um quinhão nessa contenda. O Irã apoia os militares sírios e o governo de Assad e os sauditas, aliada dos Estados Unidos, luta para derrotar o regime de Damasco enquanto combate rebeldes xiitas houthis, na guerra civil do Iêmen, desde 2015. O país árabe mais pobre da península sofre bombardeios diários das monarquias sunitas da região e, inclusive dos EUA. Só o Irã manda reforços para os xiitas houthis. As baixas já somam mais de 10 mil civis.
Mas afinal o presidente sírio é um ditador? Pela cartilha da democracia não. Esse é um dos argumentos de marketing engendrado pelo bloco euro americano para manipular a opinião pública contra o regime sírio e justificar a invasão. Assad foi democraticamente eleito em junho de 2014 com 88,7% dos votos em um pleito legal que envolveu também outros candidatos, mesmo com a guerra civil em curso.
Contudo, um lado sombrio e determinante da guerra síria é que a região abriga grupos étnicos que se rivalizam desde tempos ancestrais. Aliás, o Oriente Médio é um gigantesco balaio étnico-religioso e esse é o principal ingrediente do conflito. Por ali já passaram gregos, romanos, assírios, hititas, otomanos, só para citar alguns. E quem governa a Síria hoje é um alauita, minoria no país, que conta ainda com grupos sunitas, xiitas, curdos e cristãos. O grande temor do lado que perder é o massacre. Diz-se que já há um genocídio de minorias em curso.
Desde o início da guerra em 2011até aqui, quem vive derrotas diárias é o povo sírio, independentemente de suas etnias. Bombardeios de um e outro lado, de rebeldes de um grupo e outro acentuam os dramáticos números: 300 mil mortos. Soma-se à tragédia o êxodo de 4,8 milhões de cidadãos sírios fugindo do palco da guerra, refugiados em vários países. A morte não tem lado e sempre há por quem chorar. Em regiões isoladas inacessíveis aos grupos de ajuda humanitária estão 270 mil civis, sem alimentos, nem água, morrendo à míngua.
Os reflexos desse drama são sentidos nas dificuldades enfrentadas pelas nações que estão recebendo essas pessoas de culturas tão diferentes. Ninguém nega o clima hostil a povos de origem árabe e islâmica com seus ritos e costumes.  Países europeus não esquecem os tempos em que foram dominados por mais de 800 anos pelos árabes. Isso deve estar preso na memória coletiva dos povos dos países invadidos pelo som das mesquitas, em tempos não menos sombrios.

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