São João Marcos: Vida, paixão e morte de uma cidade


Foto: Arquivos Google – http://www.saojoaomarcos.com.br/oparque.asp

Na tarde de uma quinta-feira, 15 de agosto de 1822, Dom Pedro I chegou em uma fazenda onde hoje é o município de Rio Claro (RJ).

Era a Fazenda de Santo Antônio da Olaria, de propriedade de Hilário Nogueira.

No dia seguinte saiu dali levando os dois jovens filhos do fazendeiro, Luiz e Cassiano Ramos Nogueira, para integrar uma improvisada Guarda de Honra e acompanhá-lo até São Paulo para realizar o intento que planejara: proclamar a Independência do Brasil.

A fazenda em questão ficava na Vila de São João do Príncipe. Que não parou de crescer. Virou a cidade de São João Marcos.

Uma cidade de destaque no Estado, com hospital, clubes e até um teatro onde se apresentava, entre outros, o famoso ator e encenador João Caetano. Virou também o maior produtor de café do país e ponto de parada no eixo Rio-São Paulo.

Imperadores e nobres, além dos posteriores figurões da República, se reuniam no local, especialmente na Fazenda Olaria, que depois passou à propriedade de Joaquim Breves – então o homem mais rico do país – que também integrou a Guarda de Honra de Dom Pedro I e presenciou o grito da Independência.

São João Marcos foi a primeira cidade do país a ser tombada pelo SPHAN (Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) em 1939. E, também, a primeira e única a ser destombada: desta vez por decreto-lei do então ditador Getúlio Vargas, que revogou o tombamento e entregou a cidade para ser destruída, casa por casa, pela Light.

Motivo? Ampliar a represa de Piraí (Represa de Ribeirão das Lajes).

Duzentos anos de História foram, literalmente, por água abaixo.

O drama de São João Marcos começou muitos anos antes quando, em 1907, a “The Rio de Janeiro Tramway”, Light and Power, co. Ltd (hoje apenas Light) começou as obras da represa de Piraí. Rios foram desviados e parte da cidade de São João Marcos foi inundada.

Feita sem nenhum planejamento, a represa, em 1909, inundou terrenos e fazendas em São João Marcos, destruiu plantações e matou tal quantidade de animais que o mau cheiro infestou a vizinhança por meses, em virtude do material orgânico.

Em seguida veio o flagelo: a malária, em virtude da desorganizada inundação.

Mais da metade da população foi contaminada. Em uma cidade que não registrava dez óbitos por ano, morreram 770 pessoas só em 1910.

Depoimentos históricos registram cenas trágicas.

Valas coletivas foram abertas no cemitério e muita gente ainda viva foi para a cova com os defuntos. Nos arredores encontravam-se cães devorando cadáveres. Em uma das casas, uma mulher morta tinha em seu colo uma criança que ainda mamava, e a seus pés outra que chorava.

Os moradores pediam socorro: enviaram cartas às autoridades implorando por médicos. Nenhuma ajuda veio, nem do governo e nem da Light. O poderio da Light colocava todos a seu favor. Imprensa, políticos e até cientistas. Osvaldo Cruz, sem sequer pisar em São João Marcos, disse que a inundação não era a responsável pela epidemia.

A população de São João Marcos, que era de 18.000 habitantes em 1898, caiu para 7.400 em 1922, chegando a 4.600 em 1941 – ano em que o governo e a Light completariam o plano de sua completa destruição.

Desde a primeira inundação e a epidemia de malária, os 4.600 moradores que restaram vivos em São João Marcos andavam desconfiados que a Light tinha planos maiores. E tinha. Ela queria ampliar a represa para aumentar a produção de energia e destruir o restante da cidade.
A maior parte da turma graúda de São João Marcos se antecipou e negociou com a Light antes mesmo do projeto ser aprovado pelo governo. Em 1939 a Light comprou 78 fazendas e algumas casas da turma rica e influente, que poderia ter algum poder de oposição.

Para a plebe sobrou uma indenização ínfima paga pela Light.

Mas veio a esperança: neste mesmo ano, em um ato de extrema ousadia, o SPHAN – recém criado – efetivou o tombamento de toda a cidade de São João Marcos como patrimônio artístico e cultural do país. A Light não ia poder demolir as casas.

A Resolução foi assinada no final da tarde de 19 de maio, uma sexta-feira. Foi um final de semana de festas e comemorações em São João Marcos que, por acaso, comemorava também seus 200 anos de existência.

Mas alegria de pobre dura pouco. Um ano depois, em 3 de julho de 1940, o presidente Getúlio Vargas assinou um decreto-lei “destombando” a cidade e dando à Light o direito de desapropriar as terras, benfeitorias e casas que quisesse.

Na Quinta-feira Santa de 10 de abril de 1941, a destruição começou. Os moradores protestaram. Saíram às ruas com cartazes que diziam: “Somos 4.600 brasileiros e não queremos desaparecer”. Em vão.

Casas eras destruídas por marretas. Construções próximas à represa eram destruídas por cabos de aço amarrados em barcos rebocadores. A dinamite fez o resto do trabalho.

O problema era a igreja, uma construção linda e vistosa, construída a partir de 1796.

A Light descobriu que teria duas dificuldades para destruir a igreja. Primeiro, sua construção era muito sólida. Segundo, os operários se recusavam a cometer este sacrilégio.

O governo mandou o Ministério da Guerra para dinamitar a Igreja mas, quando os soldados chegaram, a Light já havia resolvido o problema, contratando um especialista do Rio de Janeiro para explodi-la.

Um detalhe é que a Igreja fica em um pouco mais alto. As águas da represa jamais chegaram até o local em que ela estava. Não apenas a igreja, mas boa parte da cidade poderia ter sido preservada. Não se sabe se isto ocorreu por erro de cálculo ou por real intenção de destruir a cidade inteira.

A outrora poderosa multinacional Light, que mandava e desmandava no país, foi depois nacionalizada e hoje é uma empresa privada brasileira. Hoje a empresa ajuda a resgatar a história de São João Marcos, patrocinando um exemplar trabalho arqueológico no local.

Em 2011 foi fundado o Parque Arqueológico e Ambiental de São João Marcos. Ruínas foram descobertas. Virou um museu a céu aberto e tem um pequeno Centro de Memória onde são exibidos objetos encontrados nas escavações. Além disso há diversas atividades desenvolvidas no local, que valem a visita.

Uma curiosidade histórica é que, em 2011, este projeto recebeu do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) o mais importante prêmio do país na área: o Prêmio Rodrigo Mello Franco de Andrade.

Qual a curiosidade?

É que o cidadão que dá nome ao prêmio foi quem, como primeiro presidente do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, tentou salvar São João Marcos da destruição através do tombamento histórico da cidade.

O lento e agonizante fim de São João Marcos sob as águas foi cercado por um silêncio generalizado.

Mas um outro acontecimento ocorrido na Europa um ano depois chocou o mundo inteiro: a destruição, por tropas nazistas, de uma pequena vila na Checoslováquia, onde um general alemão fora assassinado.

A vingança de Hitler foi implacável. Mandou fuzilar todos os homens acima de 15 anos um total de 173. Mulheres foram mandadas para campos de concentração, onde muitas morreram de tifo e exaustão. Calcula-se que até 350 pessoas possam ter morrido no total da operação.

Hitler mandou que destruíssem todas as casas, com explosivos. Tratores enterraram o que restou. Transformada em pasto, a aldeia foi riscada dos mapas da Europa.

Em 1944, vários países do mundo resolveram criar localidade para homenagear a vila desaparecida e perpetuar o seu nome.

O nome da vila é Lídice.

No Brasil, Lídice é distrito de Rio Claro e fica exatamente ao lado de São João Marcos.

Para a justa homenagem à vila destruída pelos nazistas, o governo Vargas escolheu o vizinho mais próximo da cidade que ele injustamente destruiu.

E São João Marcos jamais recebeu homenagem de nenhum governo brasileiro.

Não só sua localização foi riscada do mapa, mas sua própria história foi apagada.

www.diariodovale.com.br/aurelio-paiva

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