Mulher na TPM

Imagem: Arquivo Google – Mercado Livre

O casal está na sala, assistindo à uma série na Netflix. Em silêncio. De repente, a mulher bufa e esbraveja:
– ah, tá um SACO essa terceira temporada de Stranger Things, viu?! Tem nada melhor não?
– ué, mas ainda ontem a gente começou a ver e você disse que estava ANSIOSA para acabar…
– é, eu disse, mas isso foi ONTEM, e as coisas MUDAM, sabia? – e pronunciou essa frase com olhos semicerrados e ar levemente ameaçador.
Ele tentou lembrar que dia do mês era, pensou em pegar o celular para consultar o calendário mas estava na mesa, um tanto distante – e seria melhor evitar movimentos bruscos. Ele tinha esquecido de tirar a mesa do café da manhã e a faca de cortar pão estava ali, mais ao alcance da mão – e de eventuais maus pensamentos.
Ela volta à carga, impávida.
– eu já disse que você tem uma coisa que me incomoda profundamente?
Ele tenta pensar. Não adianta. O ar ficou tão denso que pode ser cortado com uma faca. Faca. Faca. Vamos parar de pensar nisso, POR FAVOR?! Ele pensa em várias alternativas e opta por fazer graça. Desafortunadamente.
– não, eu não sei, mas APOSTO que você vai me dizer, amor!
Ela semicerra os olhos novamente, o que a deixa parecendo um misto de Jack Nicholson em “O Iluminado” com Anthony Perkins, em “Psicose”. Ele não gostou das lembranças.
– está querendo bancar o engraçadinho comigo… AMORRRRR?
– SIM, quer dizer, não, claro que não! – grasnou – de onde você tirou ISSO?!
– quer saber? Eu já sei o que vou fazer. Já sei.
Ela se levanta, em passos deliberadamente lentos, indo na direção da mesa. Da – glup! – faca de pão. Ele lembrou que tinha mandato afiá-la na semana passada. Não foi um pensamento feliz.
– o… o que você vai fazer? Pensa BEM!, coaxou ele.
– eu já pensei e já devia ter feito isso antes.
Fria. Implacável.
Ela passou pela mesa, pela faca e entrou na despensa. Emergiu de lá com uma embalagem de chocolate Lindt Gold. Aquela, um barrão de quase uma tonelada de chocolate suíço. Misericordiosamente, lacrada.
Ela brandiu a barra imensa, gigantesca, gloriosa, como se fosse a Excalibur. E sorriu. Ele pensou que nunca na vida vira algo tão bonito. Pensou em pedir um pedaço – a barra era COLOSSAL, o Godzilla das barras de chocolate – mas achou melhor não abusar da sorte.
Pensou se a próxima viagem seria antes da próxima TPM.
Se um dia fosse presidente, ia baixar os impostos do chocolate suíço, igualando-os ao do Buscopan.
Pensando bem, melhor zerar a carga tributária. Gênero de primeira necessidade, viu?

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