Hoje eu acordei às cinco e meia da manhã e fiquei ouvindo a chuva nos caibros

Levantei silenciosamente, cogitei passar um café, zanzei pela casa adormecida e escorreguei de novo para a cama.

Continuei ouvindo a chuva nos caibros.

Há uma espécie de oração muda nesse ato, quase esquecido em um mundo aparentemente sem caibros, beirais, cornijas.

Vivemos em uma sociedade de ângulos e linhas retas, um mundo em que, como dizia Scruton, a arquitetura dedicou-se a desumanizar o ambiente em que o ser humano vive, transformando curvas acolhedoras em “projetos” tão sem alma quanto Westworld.

Vivemos em uma sociedade de sentimentos em linhas retas.

Quem pode parar e ouvir a chuva nos beirais, se nem quase beirais há mais? Ou o simples desejo de ouvir a chuva cantar?

Ouvir as canções que a chuva canta e recolher seus segredos é um pouco como nos reconectar à um universo meio mágico e semidesconhecido hoje:

Onde nos sentimos exatamente aquilo que somos, primatas agrupados em cima de árvores e observando com olhos um tanto assustados o poder da natureza.

Um dia chuvoso traz um pequeno mundo de promessas delicadas:

retomar “Grande Sertão: Veredas”, na nova edição primorosa que achei;

retomar o bluesy para o qual compus a letra;

retomar, recomeçar, recompor, reescrever, renovar.

Daqui a pouco vou levantar, vou passar um café e começar o dia.

Mas agora não. Agora vou só prosseguir acolhendo o que a chuva tem para me dizer.

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