17 de abril de 2024
Colunistas Fernando Gabeira

Um governo que começa

É preciso andar rápido e bem, pois a extrema direita recuou após o 8 de janeiro, foi golpeada com o escândalo das joias, mas está sempre pronta a ressurgir.

O ano político começa, de fato, com o envio do projeto de arcabouço fiscal ao Congresso e, em seguida, o debate sobre a reforma tributária. Alguns anos começam mais tarde, outros custam a acabar, como o último de Bolsonaro. Foi prolongado pelos acontecimentos de 8 de janeiro, a tragédia Yanomami e, agora, mais recentemente, o escândalo das joias presenteadas pela Arábia Saudita.

A reforma tributária é vista por muitos como um projeto que vai fazer o País avançar, tanto quanto o Plano Real, no passado. Há um otimismo em relação ao resultado, mas também em relação às possibilidades. Parece que o tema amadureceu e a maioria no Congresso concorda em aprovar algum tipo de texto nesse sentido.

Como o tema envolve muitos interesses conflitantes, há quem duvide da sua viabilidade, com o argumento de que a reforma foi tentada muitas vezes e fracassou. De fato, há um emaranhado de interesses, mas é difícil de ver o tema com o olhar da história natural, uma simples repetição, como o curso das estações do ano.

Embora ainda não se conheça o texto final, que englobará propostas do governo e as que existem na Câmara e no Senado, há uma dúvida sobre se é possível uma reforma do tipo ganha-ganha: alguém perderá.

O que se sabe até o momento, ao optar pela transparência, é que esse tipo de reforma vai deixar de fora subsídios que enfraquecem o sistema tributário brasileiro. Se for assim, já se sabe quem perderá e as possibilidades de resistência.

Isso sem falar nas dúvidas municipais e estaduais diante de um projeto capitaneado pelo governo federal. Haverá perdas entre os próprios entes federados? Se houver, certamente as coisas ficarão mais difíceis.

Mas será preciso, mesmo, esperar a reforma tributária para ter a sensação de um país em movimento? Sem prejuízo do debate, o que é possível fazer de uma forma mais ou menos independente?

O governo tem insistido em terminar obras inacabadas, a partir, inclusive, de reuniões com governadores. Mas o problema que as paralisou continua de pé: falta de dinheiro. São quase 9 mil obras e completá-las é um desafio que tomará mais de dois anos.

Em todas as reuniões, o governo fala em aumentar o investimento público como uma premissa do crescimento econômico. Ao menos no discurso, quase não se acentua o papel da iniciativa privada, muito menos as diversas possibilidades de integrá-la no esforço de crescimento. É como se a responsabilidade toda fosse do governo, quando, na verdade, as grandes parcerias seriam uma forma mais atualizada de tocar o barco.

Um dos campos em que os projetos de parceria poderiam florescer é o do meio ambiente.

Já existe financiamento de governos no Fundo Amazônia, que, além de Noruega e Alemanha, deve incorporar também a ajuda norte-americana.

É uma área em que empresas, fundos de pensão e mesmo personalidades internacionais deveriam ser convidados a contribuir, desde que se formulem projetos atraentes.

Os discursos feitos pelo governo até o momento foram bem recebidos. No entanto, a prática, nestes meses iniciais, ainda não se sintonizou com a teoria – houve um recorde de desmatamento em fevereiro: 322 km2.

É preciso andar rápido e bem, porque a extrema direita recuou após o 8 de janeiro, foi golpeada com o escândalo das joias, mas está sempre pronta a ressurgir. Há um fator que a mantém de pé: a capacidade de racionalizar, de inventar versões positivas para um público aberto a acreditar em tudo o que vem destes subterrâneos da desinformação e das fake news.

Alguma tentativa de manter a fidelidade do público mais pobre certamente será bem-sucedida. É o caso do programa Desenrola, que, em princípio, poderá atenuar a situação de 37 milhões de consumidores inadimplentes. Foi construído para funcionar, inclusive, com a previsão de um fundo oficial de R$ 10 bilhões para garantir a dívida.

Outras tentativas, como a ideia de passagens de avião a R$ 200, não passam de boa intenção. O próprio Lula advertiu que ideias desse tipo deveriam passar por um exame do governo, inclusive para saber se são prioritárias e, principalmente, se há dinheiro para financiá-las.

O lançamento de ideias embrionárias revela um problema de comunicação interna que, somado às dificuldades de navegar num mundo dominado pelas grandes plataformas e redes sociais, expõe um nó que o governo da frente democrática não conseguiu desatar.

Na verdade, mesmo avançando em projetos como o da reforma tributária e em alguns outros campos da administração, as dificuldades de uma boa comunicação tornam-se decisivas nos tempos de hoje. Não se pode atribuí-las de modo genérico às esquerdas. Os russos, por exemplo, desenvolveram táticas tão sofisticadas que acabaram sendo considerados por muitos países uma ameaça mundial nesse campo.

Ainda assim, navegar num tsunami de fake news num período chamado pós-verdade não significa fazer o jogo sujo, como os russos e a extrema direita fazem, mas, ao menos, parar para pensar no assunto e tentar um novo caminho.

Artigo publicado no jornal Estadão em 17/03/2023

Fonte: Blog do Gabeira

Fernando Gabeira

Jornalista e escritor. Escreve atualmente para O Globo e para o Estadão.

Jornalista e escritor. Escreve atualmente para O Globo e para o Estadão.

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