Diário da crise II

Um dos meus deveres de casa é estudar porque o Oriente está se saindo melhor na epidemia de coronavírus.

Tinha separado a China, porque os casos que me interessam mais são os de países democráticos, como Coreia do Sul, Taiwan, Singapura.

Muitas das diferenças entre governos democráticos e ditatoriais não têm tanto peso em algumas circunstâncias. Pensamos que o lockdown, a suspensão das atividades com todos em casa só fosse possível num regime como o chinês.

A evolução da epidemia mostrou que é possível também num país como a Itália, com características mais liberais.

A verdade é que, apesar do fechamento das fronteiras na Europa, os orientais não estão viajando para lá. Pelo contrário, existe uma corrida pelas passagens de volta ao Oriente.

Li a entrevista de um bolsista brasileiro na Coreia do Sul e ele afirma claramente que pode voltar ao Brasil mas preferiu ficar por lá, por que se sente mais seguro.

O filósofo sul coreano Byung-Chul Han, que vive em Berlim, deu algumas pistas para a compreensão do problema. Ele considera a China um estado policial digital, com vigilância que vai desde a leitura da febre de cada um até o reconhecimento de faces e análise do comportamento do usuário.

Mas ele encontra também um ponto comum entre os países orientais, independente do regime. Esse ponto está na cultura, na herança confucionista.

O nível de disciplina dos habitantes, mesmo nos países democráticos, é maior que no Ocidente. A preocupação com a privacidade é menor. Isto facilitou o controle na Coreia do Sul.

Outro aspecto que destaca é a facilidade do uso de máscaras nesses países. Ele atribui a isso também uma certa despreocupação com a individualidade, o ato de mostrar sua cara.

Numa entrevista de uma brasileira que vive há 25 anos no Japão, ouvi também que existe um hábito de usar máscaras no cotidiano, independente da chegada do corona vírus. É uma defesa antialérgica inclusive contra a poluição.

Vou continuar pesquisando, mas, realmente, o que pesa muito nesses momentos é a tradição cultural. Ela não é exportável, cada país tem a sua.

Isso não significa que táticas comuns possam ser desenvolvidas no caso da epidemia. A consciência da morte, o amor pelos parentes e amigos, são fatores que tendem a produzir grandes conquistas coletivas num país latino.

No próximo texto, vou tentar refletir sobre a questão econômica. Vamos ficar mais pobres. Muito mais pobres. Um grande desafio será manter um nível de alimentação que não derrube nossa imunidade, não só contra o coronavírus mas diante de todas as outras possibilidades de doença.

Ouvi um ambulante em Nova York dizer a mesma frase que ouvi de um camelô no Rio:

– Se não morrer de coronavírus, posso morrer de fome.

É diante dessa realidade crua que me interessa analisar as várias propostas econômicas em jogo. A mais razoável me parece ainda uma renda mínima universal, garantida pelo governo.

Mas há também a saúde das empresas e os empresários pedem uma espécie de Plano Marshall, um grande programa de incentive aplicado no pós guerra na Europa.

A cada dia, sua agonia. Até amanhã.

Fonte: Blog do Gabeira

Notícias Relacionadas

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *