Diário da crise III

A pandemia de coronavírus tem nos obrigado a refletir sobre a fragilidade de nosso sistema de saúde. Mas na medida em que avança a quarentena, o tema econômico passa a ser também de grande importância.

Quando examinamos a ação sanitária do governo, focamos em Luis Henrique Mandetta. Quando observamos a economia, o personagem oficial passa a ser Paulo Guedes.

Ninguém mais inadequado para esse momento do que ele. Toda sua carreira e formação estiveram voltadas para fortalecer o mercado e retirar a importância econômica do estado.

Era o homem ideal para um processo de privatização, em muitos pontos necessário. No entanto, a pandemia de coronavírus não só demanda gigantescos esforços do sistema de saúde nacional como também uma agressiva participação econômica do governo.

A frase do ambulante que teme morrer de coronavírus ou fome é essencial para compreendermos o momento.

A resposta que o governo deu para ele foi frustrante: uma ajuda de R$ 200 por mês. A resposta que a medida provisória deu para os trabalhadores formais foi condenada pela maioria esmagadora.

Suspender os contratos por quatro meses e combinar com o patrão como ser compensado implica em uma negociação muito desigual.

A medida provisória, logo revogada, não definia a porcentagem de salário a ser preservada, não especificava o papel do governo na compensação e sequer mencionava os bancos e o capital financeiro.

Esses foram, de certa forma, contemplados com a decisão do BC de injetar R$ 1,216 trilhão no mercado financeiro.

Preciso de mais tempo para estudar tudo isso. No entanto, é fundamental que esse movimento do governo não sirva para concentrar mais ainda a renda, de forma que os muito ricos saiam com mais riqueza depois dessa crise.

As leitura da história da peste indicam que sua passagem deixa mais forte a ideia de inclusão, transforma as instituições de uma forma positiva.

Não sou daqueles que enfatizam apenas os aspectos positivos que o futuro nos trará. Não acredito que um vírus faça a revolução. Acho apenas que abre a possibilidade de uma sociedade mais inclusiva.

De uma forma indireta, a epidemia contribuiu para uma queda nas emissões de CO2 e contribui com as metas de redução previstas pelos acordos internacionais.

De uma certa forma, ela nos levará a valorizar profissões bastante subestimados, sobretudo a de médicos e profissionais de saúde.

Nossos craques de futebol ganham milhões mas, num momento como esse, vemos como são mal pagos profissionais de saúde, pesquisadores, cientistas, policiais, bombeiros- todos que nesse momento estão na linha de frente no combate ao coronavírus.

A tendência da sociedade é bater palmas e chamá-los de heróis, nesse momento. No entanto, isto pode ser uma maneira de postergar o enfrentamento das distorções. Conferimos uma honraria simbólica e nos desobrigamos de enfrentar a realidade concreta.

No momento em que escrevo, por exemplo, médicos e enfermeiros que estão na linha de frente se perguntam onde podem se hospedar, caso não queiram expor suas famílias. É hora de acionar o complexo hoteleiro e abrir possibilidades para que se hospedem com conforto e segurança.

Concluindo por hoje: apesar de injetar tanto dinheiro no sistema financeiro, o governo ainda não disse claramente o que pode fazer pelas pessoas, em termo de garantia de uma renda mínima para quem é autônomo, muito menos o quanto pode contribuir com a complementação de salários reduzidos.

Vamos continuar pressionando. Mas vi uma entrevista coletiva do governo ontem e o panorama era desolador.

No artigo do Globo perguntei pelo Ministro da Ciência, estaria na lua? Finalmente apareceu mas num espetáculo constrangedor. Eles não conseguiram dar respostas a algumas perguntas essenciais.

Além disso, no quesito economia, escolhem para responder as perguntas um funcionário que deve ser competente mas não tem voz adequada para um comunicado dessa natureza.

Eu que cobrava a presença do Ministro da Ciência acho, agora, que o melhor seria embarcar de novo numa viagem especial.

Fonte: Blog do Gabeira

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