30 de maio de 2024
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Deu ruim na festa da firma

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2015 parece ter vindo ao calendário, principalmente ao calendário brasileiro, mais do que disposto a não deixar boas lembranças. Parece até um ano inspirado no ex-presidente militar morto João Baptista Figueiredo, que, com aquele carisma todo que lhe era peculiar, bufava orgulhoso ao dizer que gostava mais do cheiro dos seus cavalos que do cheiro de povo. Ao desapear da presidência, em 1985, implorou aos brasileiros: “Me esqueçam!”

É exatamente isso que milhões de brasileiros desejam quanto a 2015: esquecê-lo. O 2015 brasileiro é igualzinho a Figueiredo, um grosso que se orgulha de sê-lo, sem a vantagem de gostar de cavalos ou de bicho algum, senão não teria, por exemplo, dado guarita, em seu novembro, ao afogamento de milhões de animais ao longo de 800 quilômetros de lama suja escorrida desde o município de Mariana (MG) até o Oceano Atlântico que banha o Espírito Santo. Ou alguém ao redor lembra de um grande feito social, econômico, político ou cultural que tenha sido relevante o suficiente em 2015 no país para ser comemorado coletivamente? Aos brasileiros que aqui e acolá tiveram um ano desses redondinhos, dignos de entrar na sua história particular festiva, recomenda-se não economizar na champagne, pois para a maioria a vida esteve mais para madrasta e das más.

BEATO SALU
Há muito tempo os brasileiros não têm motivos para ter orgulho dos seus representantes nem de suas instituições, embora só os anencéfalos que foram abençoados com o dom da vida fora do útero queiram a morte da democracia e, como zumbis, uivem hoje em passeatas clamando pela volta da ditadura militar. Mas também é verdade que nunca se viu um Congresso tão carente de um raticida geneticamente modificado com capacidade letal a toda prova, um judiciário tão promíscuo em suas relações com figurões e figurinhas da República e estas mostrando como nunca se viu e numa escala difícil de acreditar o quanto estão à venda, numa baciada promocional de almas sebosas, onde banqueiros e empreiteiros pagam milhões e traficantes e lobistas pagam milhares, dependendo de para quem, por e para quê.

Até o Bope do Rio de Janeiro, que ontem era aplaudido pelos defensores da pena de morte extraoficial, por matar traficantes de ceroulas em ‘micro-ondas’ (um tubo vertical de pneus velhos empilhados e encharcados de gasolina), ou asfixiados em sacos plásticos cheios d’água, agora tem integrantes de seu primeiro escalão presos por vender segurança, liberdade e informação aos traficantes que antes matavam. Como diriam as beatas já mortas e como dizem os milhares de covers do Beato Salu de Facebook, é fim de mundo.

FUÇAS
Graças aos deuses, 2015 está indo embora e já que quase tudo tá perdido, resta alguma diversão, agradecimentos pelos nacos de coisas boas que sempre existem, pelo natal das lembrancinhas e, claro, pelo melhor de tudo, a picardia. Como todo mundo já gastou o discurso sobre “o meu amigo secreto” nas redes sociais, constrangendo e fazendo bullying indireto, a filosofia agora é “deu ruim na festa da firma”. Aconselha-se, em nome da picardia, não perder a piada do ano da República, perseverar internamente no mantra chupado do temperamento faca na bota da ministra da Agricultura, Kátia Abreu, que, na festa de confraternização do Senado, rumou (como se diz na Bahia) uma taça de vinho nos olhões do ministro José Serra, que a chamou de namoradeira. Para fazer justiça à delicadeza de 2015, cada um incorpora a ministra ofendida e vai logo pensando: nas fuças de quem vou atirar uma taça de vinho na festa da firma? Se for Sidra, é mais bapho ainda.

bruno

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