
A situação política está sombria e a perspectiva de ‘abertura’ – para usar um termo corrente nos anos 60/70/80 – me parece muito distante.
Minha sensação é similar à do período do regime militar.
A posição das FFAA, em se manter equidistante da crise constitucional, pode parecer neutra mas de fato não é. É uma atitude velada de apoio ao regime.
A preponderância do STF em matéria política, mais a aliança dos veículos da grande imprensa, somados ao ativismo dos sindicatos e de setores da elite intelectual e financeira é uma representação invertida, similar a da chamada ‘burguesia’ nos pactos que garantiram longevidade ao regime militar.
Se hoje, como outrora, eu tivesse 27 anos, quando me mandei para a Europa, estaria agora fazendo preparativos pra me mandar daqui.
Este é um dilema da consciência que se traduz em crise existencial.
Hoje, aos 77 beirando 78, sei que posso me refugiar na minha individualidade, cercado de afeto e amigos queridos. Contudo, ainda me sinto latente, mesmo com limitações de ordem física, o desejo de liberdade e justiça que, queiramos ou não, se expressa no social.
Nunca senti atração pelo exílio como afastamento real do meu ser regional. Invejava meus amigos estrangeiros e até alguns brasileiros que se desligaram da nacionalidade e se tornaram cidadãos legais no país que escolheram viver para sempre. Constituíram família e naturalizaram.
É o caso da minha irmã, que foi para França quando eu morava lá nos anos 70. Casou, fez família e é cidadã francesa.
Não sei porque diabos não consigo abandonar minha categoria nacional, mesmo sabendo que o Brasil tem uma atração fatal pela conivência com o poder dominante.
Sua elite é farsante e se sente realizada com fábulas sobre direitos e democracia.
É deslumbrada, covarde e, se bem remunerada, se ajusta, docilmente, à submissão.

