16 de fevereiro de 2026
Adriano de Aquino

Reflexões colaborativas

Irã “Hoje”: Ali Khamenei, o Líder Supremo, detém o poder absoluto, controlando as forças militares e as decisões políticas de um regime cruel e retrogrado, mix de resquícios de elementos da democracia parlamentar com uma teocracia centralizadora, onde a interpretação da lei xiita, orquestrada por clérigos, prevalece e se impõe sobre a vontade popular. A repressão à dissidência é forte, com controle rígido da mídia e dos direitos civis.

O que me causa indignação e revolta é ver hoje grande parte da classe letrada, artistas e intelectuais do Ocidente relativizarem os crimes cometidos pelo poder teocrático do Irã, fecharem os olhos e, pior ainda, justificarem o massacre da população civil que protesta contra a opressão religiosa/estatal/militar na sua luta pela liberdade.

A foto desse post é emblemática. Ela é um apavorante retrato da implantação do regime teocrático/militar no Irã, consolidada pela revolução islâmica de 1979.

Hoje, 2026, esse regime enfrenta severa pressão social, ainda que tardia – tendo em vista o alto grau de violência do regime – que acentua sua total perda de legitimidade. Após 46 anos, o regime dos aiatolás enfrenta protestos massivos, crise econômica profunda e desafios à sua sobrevivência.

A pergunta: Por que, parte da gente letrada, da classe artística e intelectuais do Ocidente apoiam essa barbárie”?

Uma resposta pode ser encontrada na aspiração reacionária e retrógrada contra a dura conquista social pela ‘afirmação’ de liberdade que levou mais de 300 anos para as nações ocidentais consolidarem ao afastarem a religião do poder político alinhado com o processo histórico de secularização, que ganhou força com a Reforma Protestante no século XVI e consolidou-se, em muitos locais, apenas com a separação formal Igreja-Estado entre os séculos XVIII e XX.

A Reforma Protestante iniciou uma ruptura com o poder centralizado de Roma, mudando a estrutura política europeia. Filósofos iluministas como John Locke, há pouco mais de 300 anos, começaram a advogar pela tolerância religiosa e separação de esferas de poder.

A separação Igreja-Estado consolidou-se com as revoluções do final do século XVIII (como a Americana e a Francesa) e caminharam firmemente nesse sentido.

A Constituição dos EUA proibiu o estabelecimento de uma religião oficial em 1791. Em muitos países, a separação foi um processo lento. A França adotou uma lei crucial de separação em 1905, Portugal em 1911. No Brasil, a separação oficial ocorreu com a República em 1889/1891, encerrando o sistema de ‘padroado’.

Durante séculos, o poder político no Ocidente foi intrinsecamente ligado ao religioso, com a Igreja Católica fundamentando o poder monárquico e servil.

Portanto, o afastamento não foi um evento único, mas uma transição gradual que durou séculos, indo desde as contestações religiosas do século XVI até a laicidade institucionalizada no século XX.

No fundo, a ‘mensagem’ dessa gente que silencia diante do massacre da população civil iraniana nos diz é que são eles, nas suas redomas de celebridades, ‘agentes’ coniventes a serviço de ditaduras retrogradas e sanguinárias.

Artista visual. Participou da exposição Opinião 65 MAM/RJ. Propostas 66 São Paulo, sala especial "Em Busca da Essência" Bienal de São Paulo e diversas exposições individuais no Brasil e no exterior. Foi diretor dos Museus da FUNARJ, Secretário de Estado de Cultura do Rio de Janeiro, diretor do Instituto Nacional de Artes Plásticas /FUNARTE e outras atividades de gestão pública em política cultural.

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