
Previsível, como os dias que sucedem as noites e vice versa, que o movimento #xx, no tocante às disputas esportivas, apoiado por mulheres e homens, viralizasse e logo fosse atacado por ativistas e simpatizantes da causa trans.
O fato é que esse movimento não é de direita ou esquerda, é sobretudo uma questão de Direito.
Que os(as) atletas trans busquem uma forma de mostrar seu talento atlético em competições esportivas seja uma iniciativa justa, não há dúvida.
A dúvida surgiu e se tornou um problemão ao se ‘impor’ para categoria feminina competições desproporcionais, ainda que se justifique que o controle hormonal de mulheres trans são tão eficazes quanto o DNA.
Notificações de diversas associações esportivas contestam essa justificativa.
Além disso, desconheço registros de trans masculinos em disputas para homens.
Nas atividades sociais, nas ciências, nas artes, na política,no pensamento e no vasto campo do conhecimento a biologia não é uma qualificação determinante.
Nesses segmentos mulheres e homens são ‘naturalmente’ iguais, ainda que a cultura passadista determinasse limites para a inserção das mulheres em diversas atividades sociais.
Porém, essas barreiras foram paulatinamente superadas por avanços incontestáveis.
Contudo, é no mínimo estranho para não dizer suspeito, que os movimentos identitários desprezem a luta das mulheres para se impor no esporte, vencer obstáculos num campo outrora exclusivo dos homens.
Ao longo da história, centenas de mulheres obtiveram conquistas extraordinárias, superando a discriminação pela força, determinação, competência e alto desempenho esportivo.
Coube a essa vanguarda feminina nos esportes – não aos cartolas- o mérito de abrir precedentes e se tornar uma inspiração para muitas outras.
Ainda que várias vencedoras admitam que há muito a se fazer para atingir uma igualdade real no panteão dos esportes olímpicos, ninguém esperava – muito menos as mulheres – que uma canetada marota viesse a decretar o fim da característica biológica na categoria feminina.
Ora, até porque é injusto que as mulheres, que conduziram o esporte feminino a elevados níveis olímpicos, sejam agora obrigadas a disputar com mulheres trans.
No meu ponto de vista, a causa trans deveria se inspirar na histórica luta das mulheres, não simplesmente derrotá-las e erguer a bandeira correta, lutando com firmeza por sua inserção no quadro olímpico na categoria ‘trans’ em disputas correlatas, como fizeram as mulheres ao longo da história.

