14 de julho de 2024
Adriano de Aquino

Frenesi midiático

Em 1972, Hitchcock fez uma versão cinematográfica desse estado psíquico em escala social.

O roteiro sobre um maníaco sexual que esganava suas vítimas com sua gravata após estuprá-las, não chegou a motivar manifestações públicas contra os fabricantes de gravatas, um símbolo misógino.

Hoje seria diferente.

Já os linguistas, tratam tecnicamente o termo como um estado de exaltação violenta que põe o indivíduo fora de si, mergulhado no desvario, andando em círculos como louco, atormentado por intensos ataques de nervos.

Passado tanto tempo esse estado mental ganhou dimensões mais abrangentes, infiltrando o vírus da demência frenética nas redações dos veículos de comunicação.

Podemos perceber essa aflição midiática nas reportagens e comentários de jornalistas sobre vários temas da vida social.

A pauta: ELEIÇÕES NO MUNDO, nos mostra a agonia midiática dos enfermos frente à virada da preferência dos eleitores em relação às vertentes políticas em disputa.

Há pouco tempo, uma espécie de harmonia ideológica apaziguava os redatores. Boa parte do mundo estava sendo governado por políticos que seguiam parâmetros progressistas. Davos, ONU, organizações climáticas, bilionários messiânicos e as lideranças progressistas sob o prisma Unidos Venceremos, eram – e ainda são – tratados pela grande imprensa como fóruns da esperança planetária.

Uma hegemonia temática sedava as aflições midiáticas, pouco importando como os eleitores viam essas propostas, sobretudo a política de imigração e os resultados concretos a nível de prosperidade, segurança e conforto social.

Nessa eleição do Parlamento Europeu, a oposição às vertentes progressistas sagrou-se vencedora.

Pronto! Em um dia o mundo virou do avesso.

Os estoques farmacêuticos de ansiolíticos se esgotaram em poucas horas. Foi um ‘Deus nos acuda’. As redações correram para tentar explicar o porquê de as suas previsões acabarem em erro.

Além de julgar o resultado como um prenúncio de dias sombrios para a Europa, os ativistas midiáticos prateiam o fim dos bons tempos e preveem catástrofes sociais que o ‘mal agradecido’ eleitor europeu parece desconhecer, apesar das insistentes matérias jornalísticas sobre a maravilha (ops!) que se tornou a vida social europeia dos últimos 20 anos, sob gestões progressistas.

A Reuters, uma espécie de templo progressista, abriu mão de uma análise imparcial para explicar a espetacular derrota dos progressistas e jogou no colo do eleitor europeu o fracasso das suas previsões.

Ao enfatizar assim o resultado dessa eleição: “acrescentou mais incerteza à futura direção política da Europa. Embora os partidos de centro, liberal e socialista estivessem preparados para manter a maioria no parlamento de 720 assentos, a votação foi um golpe interno para os líderes da França e da Alemanha”, o editor desprezou grosseiramente a influencia da opinião pública nas decisões parlamentares.

O redator-chefe, muito seguro de si, certamente confiante da vitória esmagadora, esqueceu de ouvir a voz do povo.

Ora, sublinhar “Embora os partidos de centro, liberal e socialista estivessem preparados para manter a maioria no parlamento de 720 assentos, a votação foi um golpe interno para os líderes da França e da Alemanha.”

SQN!

Se houve golpe, ele aconteceu no meio do próprio grupo.

Ao depositar ‘fé cega’ no poder da legenda “extrema direita”, cunhada como paradigma salvacionista, um tipo de vacina preventiva contra uma hipotética pandemia extremista, os líderes progressistas – juntos e misturados – desprezaram o fato de que lideranças europeias, há tempos no poder e, as próprias redações da grande imprensa, desviaram de classificar o Hamas como um grupo ‘extremista’ que usa o terror como ação política.

Entretanto, a opinião pública não desprezou esse fato e, seus representantes no Parlamento Europeu, decidiram ouvir a voz do eleitor e não dar atenção às ladainhas do consórcio progressista.

Mesmo diante desses fatos a Reuters segue na sua sinfonia monocórdica, sempre reprisada nos concertos da mídia ativista: “A França começou a se preparar para as eleições, depois que o presidente Emmanuel Macron convocou eleições legislativas surpreendentes, após uma derrota contundente na votação do Parlamento Europeu para o partido de extrema direita de Marine Le Pen. O chefe do escritório, Richard Lough, junta-se ao podcast da Reuters World News com insights sobre a ação arriscada de Macron.

O primeiro-ministro irlandês, Simon Harris, pode sentir-se tentado a convocar eleições nacionais antecipadas, depois de o rival Sinn Fein ter fracassado nas eleições locais, derrubando as expectativas de que o partido pró-irlandês da unidade governaria a Irlanda pela primeira vez.”

Parafraseando John Lennon: “O sonho acabou” um prognóstico realista e muito melhor do que o vulgar “Perdeu, Mané” que, mais breve do que supõe o autor desse esculacho verbal, verá um futuro parecido com aquele que projetou para o pobre país de origem.

Adriano de Aquino

Artista visual. Participou da exposição Opinião 65 MAM/RJ. Propostas 66 São Paulo, sala especial "Em Busca da Essência" Bienal de São Paulo e diversas exposições individuais no Brasil e no exterior. Foi diretor dos Museus da FUNARJ, Secretário de Estado de Cultura do Rio de Janeiro, diretor do Instituto Nacional de Artes Plásticas /FUNARTE e outras atividades de gestão pública em política cultural.

Artista visual. Participou da exposição Opinião 65 MAM/RJ. Propostas 66 São Paulo, sala especial "Em Busca da Essência" Bienal de São Paulo e diversas exposições individuais no Brasil e no exterior. Foi diretor dos Museus da FUNARJ, Secretário de Estado de Cultura do Rio de Janeiro, diretor do Instituto Nacional de Artes Plásticas /FUNARTE e outras atividades de gestão pública em política cultural.

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