
Criança tem que pensar em coisas de crianças, e política é assunto de adulto.
Olá, caríssimos leitores!
Moro próximo a uma escola e, diariamente, dezenas de crianças passam em frente à minha residência. Até aí, nada de extraordinário. Afinal, a movimentação de estudantes faz parte da rotina de quem vive nas proximidades de uma instituição de ensino.
Entretanto, um fato recorrente tem chamado minha atenção e provocado uma reflexão que considero necessária: a maneira como
a polarização política brasileira está ultrapassando os limites do debate entre adultos e alcançando crianças e adolescentes.
Ao passarem diante da minha casa, algumas crianças, ao perceberem que meu veículo e o portão da residência estão
adesivados com material de apoio ao senador Flávio Bolsonaro, começam a gritar, em tom de deboche e provocação: “Lula 13! Fora, Bolsonaro”!
O episódio, por si só, poderia ser interpretado como uma manifestação de preferência política. Afinal, vivemos em uma
democracia, na qual a liberdade de expressão e a pluralidade de ideias são valores fundamentais. O que causa preocupação, porém, é quando essa manifestação deixa de ser uma simples opinião e se transforma em provocação, desrespeito e, em algumas ocasiões, até mesmo em atos de depredação.
Isso porque a situação já ultrapassou os limites das palavras. Houve episódios em que crianças chegaram ao ponto de retirar perfurados e adesivos do meu veículo, numa atitude que não pode ser justificada pela idade nem pela preferência política de quem a pratica.
E aqui faço uma observação importante: não se trata de condenar crianças por pensarem de maneira diferente da minha, tampouco de questionar o direito de qualquer pessoa de simpatizar com Lula, Bolsonaro, Flávio Bolsonaro ou qualquer outro personagem da política nacional. O problema não está na preferência política, mas na falta de respeito ao patrimônio alheio e na transformação da divergência em hostilidade.
O que mais me chama a atenção é a faixa etária dos envolvidos: crianças e adolescentes com idades aproximadas entre 10 e 15 anos. Estamos falando de uma fase da vida em que a formação do caráter, o desenvolvimento emocional e a compreensão dos limites entre o certo e o errado ainda estão em construção.
Quem está ensinando essas crianças a transformar política em provocação?
Essa é a pergunta que precisa ser feita.
Crianças não nascem odiando políticos, partidos ou pessoas que pensam de maneira diferente. Elas observam o ambiente em que vivem, escutam conversas, reproduzem expressões e absorvem comportamentos dos adultos que as cercam. Quando o ambiente familiar, social ou digital é marcado por agressividade, intolerância e desqualificação permanente de quem pensa diferente, existe o risco de que esses comportamentos sejam reproduzidos sem que os mais jovens compreendam plenamente suas consequências.
É preciso ter cuidado para não generalizar. Nem toda criança que repete um slogan político compreende seu significado, assim como nem toda manifestação política de um adolescente representa intolerância. A questão é justamente esta: será que estamos
ensinando nossos jovens a pensar criticamente ou apenas a repetir palavras de ordem?
Uma criança pode ter simpatia por determinado candidato, assim como pode discordar dele. Pode acompanhar conversas sobre o futuro do país e começar a desenvolver suas próprias opiniões. Isso faz parte do processo de formação cidadã. Mas existe uma diferença enorme entre aprender sobre política e ser envolvida em disputas marcadas por hostilidade, provocações e desrespeito.
Criança tem que pensar em coisas de crianças, e política é assunto de adulto.
A frase não significa que os jovens devam ser afastados da educação política ou impedidos de conhecer a realidade do país. Significa que a infância precisa ser respeitada e que a educação para a cidadania deve ser construída com responsabilidade, diálogo e incentivo ao pensamento crítico, sem transformar crianças em instrumentos de disputas partidárias.
A escola, por sua vez, tem um papel importante na formação de cidadãos conscientes, ensinando o respeito às diferenças, a
convivência democrática e a resolução pacífica de conflitos. Isso não significa atribuir à instituição de ensino a responsabilidade por comportamentos ocorridos nas ruas, mas reconhecer que a educação para o respeito precisa ser uma construção coletiva.
Aos pais e responsáveis, fica uma reflexão: antes de comemorar que uma criança repete o slogan do candidato de sua preferência, vale perguntar se ela também aprendeu a respeitar quem pensa diferente. Afinal, educar não é ensinar os filhos a vencer todas as discussões, mas prepará-los para conviver com pessoas que não compartilham das mesmas ideias.
Quanto ao meu patrimônio, deixo claro que a liberdade de manifestação política não dá a ninguém o direito de retirar adesivos,
danificar veículos ou desrespeitar a propriedade alheia. O que vale para quem apoia a direita também deve valer para quem apoia a esquerda, e vice-versa. A democracia não pode ser defendida apenas quando a opinião do outro coincide com a nossa.
Não pretendo transformar crianças em adversárias políticas, muito menos alimentar uma disputa partidária com quem ainda está em fase de formação. O que desejo é chamar a atenção para um comportamento que merece reflexão e correção, com a participação responsável das famílias e, quando necessário, das instituições competentes.
O Brasil já enfrenta divisões suficientes entre os adultos. Não precisamos transferir essa hostilidade para as novas gerações, como se a convivência democrática dependesse de todos escolherem o mesmo lado.
Que nossas crianças aprendam a brincar, estudar, sonhar, descobrir o mundo e desenvolver suas próprias ideias. Que aprendam também que discordar é um direito, mas respeitar o próximo é um dever de convivência.
Porque uma sociedade verdadeiramente democrática não se constrói ensinando crianças a hostilizar quem pensa diferente,
mas ensinando-as a respeitar as diferenças, mesmo quando não concordam com elas.

