9 de outubro de 2026
Editorial

Filme por filme, Lula agora também tem o seu

O Brasil é mesmo um país extraordinário. Quando pensamos que o roteiro da política nacional já esgotou o estoque de surpresas, surge mais um capítulo que parece ter sido escrito por um roteirista especializado em misturar poder, dinheiro, negócios e personagens conhecidos dos bastidores de Brasília.

Desta vez, o protagonista é um filme sobre Lula. Não se trata de uma nova produção eleitoral, daquelas em que o candidato aparece cercado de virtudes e promessas, mas de um documentário sobre sua trajetória. O problema não está na realização da obra, naturalmente. Presidentes, ex-presidentes e outras figuras públicas são temas legítimos do cinema. A questão começa quando surgem suspeitas sobre a origem dos recursos que teriam sido destinados à produção.

Uma reportagem da revista Veja atribuiu a Daniel Vorcaro relatos sobre uma suposta negociação envolvendo R$ 30 milhões e o Instituto Lula, com recursos que, segundo a publicação, seriam destinados ao documentário dirigido por Oliver Stone. A narrativa divulgada também menciona intermediários ligados ao PT e possíveis interesses relacionados a negócios com fundos de pensão.

A história seria suficientemente explosiva se não houvesse um detalhe fundamental: a Polícia Federal informou que Vorcaro não prestou o depoimento descrito na reportagem e que não recebeu dele os documentos apresentados como parte dessa suposta revelação. As propostas de colaboração premiada do ex-banqueiro não foram aceitas por falta de atendimento aos requisitos legais. A defesa de Lula também contestou as acusações.

Portanto, não estamos diante de uma denúncia oficialmente confirmada pelas autoridades nos termos divulgados. Estamos diante de alegações cuja autenticidade, origem e consistência precisam ser esclarecidas. A diferença não é um detalhe jurídico para ser colocado em letras miúdas. É o que separa uma suspeita de um fato comprovado. Devemos considerar que a Revista Veja não é um veículo qualquer.

Isso não significa que o assunto deva ser ignorado. Pelo contrário. Quando aparecem referências a cifras dessa magnitude, instituições políticas e possíveis negociações empresariais, o esclarecimento dos fatos é indispensável. Se existem documentos autênticos, que sejam examinados. Se há gravações, que sua origem e integridade sejam verificadas. E, se as acusações não se sustentam, que isso também seja demonstrado.

Mas a história ganha uma dimensão ainda mais interessante quando olhamos para o outro lado da polarização política.

Lula não é o único personagem da política brasileira a ter sua trajetória transformada em filme cercado por controvérsias. Jair Bolsonaro também ganhou sua produção cinematográfica, Dark Horse, cuja realização acabou entrando no radar de investigações sobre a destinação de dinheiro público.

Nesse caso, a Polícia Federal apura possíveis irregularidades envolvendo emendas parlamentares destinadas ao Instituto Conhecer Brasil, entidade relacionada à produtora do longa. A investigação procura esclarecer se recursos destinados formalmente a projetos sociais teriam sido desviados de sua finalidade e transferidos, direta ou indiretamente, para atividades relacionadas à produção cinematográfica.

A apuração ganhou dimensão judicial, e o ministro Flávio Dino, do STF, autorizou a Polícia Federal a acessar dados de uma investigação conduzida anteriormente pela Polícia Civil de São Paulo. Entre os pontos sob exame estão transferências financeiras e a possível conexão entre recursos públicos e despesas da produtora.

Os envolvidos negam irregularidades, e as investigações ainda precisam estabelecer responsabilidades. Não cabe transformar suspeitas em condenações antecipadas. Cabe, porém, acompanhar o destino do dinheiro e exigir explicações sobre a aplicação de recursos públicos.

É aqui que a comparação se torna politicamente relevante.

De um lado, surgem alegações sobre um suposto financiamento relacionado ao documentário de Lula, contestadas pelos envolvidos e não confirmadas pela Polícia Federal como parte de um depoimento oficial de Vorcaro. De outro, há uma investigação formal sobre possíveis irregularidades na destinação de emendas parlamentares que podem ter beneficiado a produção de Dark Horse.

Os casos não são idênticos, e seria incorreto apresentá-los como se tivessem o mesmo conjunto de provas. Mas ambos suscitam uma questão que deveria ser elementar em qualquer democracia: quem financia essas produções, com que dinheiro e sob quais condições? O cinema pode, evidentemente, retratar presidentes, ex-presidentes, heróis, vilões e personagens controversos. Pode homenagear, criticar, provocar e até tentar reabilitar reputações. A liberdade artística não depende da aprovação dos adversários políticos de quem aparece na tela.

O financiamento, entretanto, é outra história.

Se o dinheiro é privado, é necessário esclarecer a natureza das operações quando surgem indícios de contrapartidas indevidas. Se é público, a exigência de transparência é ainda maior. Recursos destinados a projetos sociais não podem ser desviados para finalidades diferentes daquelas que justificaram sua liberação. E a eventual proximidade entre financiadores, produtores e políticos precisa ser examinada à luz de provas, não de simpatias partidárias.

O episódio de Dark Horse mostra que uma produção cinematográfica pode deixar de ser apenas um empreendimento cultural e passar a integrar uma investigação sobre a destinação de recursos. A controvérsia em torno do documentário de Lula, por sua vez, demonstra como uma alegação ainda não comprovada pode adquirir enorme repercussão quando envolve personagens centrais da disputa pelo poder.

Há também uma diferença importante entre transparência e exploração eleitoral. Uma denúncia verdadeira não deixa de merecer investigação porque aparece em período de campanha. Da mesma forma, uma acusação não se torna verdadeira simplesmente porque foi divulgada às vésperas de uma eleição. O calendário político não substitui a prova, assim como a conveniência partidária não pode servir de escudo contra uma apuração legítima.

É preciso cobrar esclarecimentos de todos. E cobrar com o mesmo rigor.

A ironia é que, enquanto os cineastas tentam construir suas narrativas sobre a história política brasileira, os bastidores financeiros ameaçam produzir roteiros paralelos, com empresários, intermediários, instituições e cifras milionárias. Em alguns casos, a investigação já está formalmente em curso; em outros, a primeira tarefa é verificar se a própria denúncia corresponde aos fatos.

No Brasil, parece que até o financiamento de um filme pode acabar exigindo um documentário à parte.

E talvez esse seja o aspecto mais revelador de toda a história. O público vai ao cinema para conhecer a versão de um diretor sobre determinado personagem. Mas, quando surgem dúvidas sobre o dinheiro empregado na produção, passa a querer conhecer também os bastidores que não aparecem nos créditos finais.

Filme por filme, Lula agora também tem o seu. Bolsonaro já tem Dark Horse. Resta saber quais histórias resistirão ao exame dos documentos, das investigações e da Justiça. Porque, na política, uma coisa é escolher o protagonista. Outra, bem diferente, é explicar quem pagou pela produção.

Valter Bernat

Advogado, analista de TI e editor do site.

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Advogado, analista de TI e editor do site.

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