11 de setembro de 2026
Cinema

Procura-se Susan Desesperadamente / Desperately Seeking Susan

De: Susan Seidelman, EUA, 1985

(Disponível no Mubi em 3/2026.)

Procura-se Susan Desesperadamente é uma deliciosa diversão. Rosanna Arquette e Madonna estão ótimas na trama maluca, inventiva, cheia de situações interessantes, que acaba levando a boas observações sobre o comportamento das mulheres, do exemplo da dona de casa caretinha, de horizontes limitadíssimos – o papel de Rosanna – até o outro extremo, da liberadérrima, ousada, promíscua, até roçando com a marginalidade – o papel perfeito para a cantora que estava, em 1985, quando filme foi lançado, se transformando em uma das maiores estrelas pop do século.

É um filme feminino, feito por mulheres, sobre mulheres. A diretora, Susan Seidelman, 33 anos de idade quando o filme foi lançado, estreava na direção de longa-metragem. O argumento e o roteiro – ricos, criativos, – moderninhos, são assinados por Leona Barish. (Consta que Craig Bolotin, que reescreveu roteiros para filmes de Francis Ford Coppola e Ridley Scott, meteu suas experientes mãos no trabalho original de Leona.) São mulheres também as duas produtoras, Sarah Pillsbury e Midge Sanford.

E são mulheres as duas protagonistas da história, a dona de casa de classe média alta de Nova Jersey Barbara Glass e a aventureira, errante, topa tudo por prazer, doidona, hippie no meio da década do yuppismo Susan Thomas.

No elenco, vários nomes que viriam a ser muito importantes

Para o papel de Dez, o terceiro mais importante do filme, os produtores, segundo o IMDb, queriam um astro da altura de Kevin Costner, que ali por 1984 sei lá estava prosa, mas estava mesmo com tudo, ou Dennis Quaid, um astro em grande ascensão. Os agentes de grandes astros não quiseram saber do terceiro papel em um filme que tinha como protagonistas duas mulheres.

O papel de Dez sobrou para o iniciante Aidan Quinn. Sorte dele.

Sorte de Rosanna Arquette. A irmã mais velha de Patricia já estava no metiê havia sete anos, mas o papel de Barbara Glass foi sua consagração. Deu à moça que em 1985 estava com 26 anos o Bafta de melhor atriz coadjuvante (um absurdo, já que ela não é coadjuvante po&%$a nenhuma) e uma indicação ao Globo de Ouro como melhor atriz de filme-comédia ou musical.

Sorte da moça Madonna Louise Ciccone, 26 aninhos recém completados quando as filmagens começaram – em Nova York, onde se passa a imensa maior parte da ação –, em 10 de setembro de 1984.

Like a Virgin, o segundo álbum de Madonna, chegou às lojas no dia 12 de novembro.

As datas, aqui, são muito importantes. Fiquei fascinado, depois de ver o filme agora, quatro décadas depois do lançamento, com esta informação do IMDb na página de Trivia sobre Desperately Seeking Susan:

“Nas primeiras filmagens externas, ninguém estava prestando atenção em Madonna. Quando as filmagens terminaram, nove semanas depois, a produção teve que contratar seguranças para manter os fãs fora do set, porque Like a Virgin havia sido lançado e Madonna era uma estrela.”

É absolutamente fantástico constatar isso, meu! Quando Madonna Louise Ciccone foi contratada para fazer o papel dessa Susan tão procurada desesperadamente, e tão parecida com ela mesma, era apenas uma cantora estreante, que havia lançado um álbum, cujo título era apenas seu prenome.

Quando o filme foi lançado, em abril de 1985, ela era uma estrela.

Faro – essa incrível dádiva de que são dotados alguns artistas muito especiais, como Nara Leão e Joan Baez, para dar os melhores exemplos, na minha opinião.

A diretora Susan Seidelman não viria a ter uma carreira especialmente marcante. Mas, neste seu primeiro longa-metragem, a escolha de atores foi uma coisa absolutamente extraordinária. Desperately Seeking Susan não apenas deu a Rosanna Arquette seu primeiro triunfo e a Madonna sua estréia gloriosa no cinema, como incluiu no elenco diversos nomes que viriam a ter importância logo depois e na época eram iniciantes – John Turturro, Giancarlo Esposito, Laurie Metcalf – além do já citado Aidan Quinn.

A trama é rica, cheia de eventos que se entrelaçam

Tá, mas é preciso ter uma sinopse. Não é possível não haver uma sinopse. Vou usar a l sinopse da Wikipedia como base, com muitos pitacos meus, é claro. Coloco entre aspas trechos que transcrevo textualmente.

E explico: a sinopse precisa de fato ser longa, detalhada, como a da Wikipedia, exatamente porque a trama é muito rica, cheia de eventos que se unem a outros, que se entrelaçam.

Lá vai:

Roberta Glass, “uma dona de casa insatisfeita de Fort Lee, Nova Jersey”, é fascinada pelas mensagens entre os amantes Susan Thomas e Jim Dandy (o papel de Robert Joy), na seção de anúncios classificados de um tablóide de Nova York. Ela é particularmente atraída pelo anúncio colocado por Jim com o título “Desperately Seeking Susan”, propondo um encontro no Battery Park.

“Enquanto isso, em um hotel de Atlantic City, a itinerante Susan lê a seção de anúncios do jornal…”

Ahnnn… Não concordo com a expressão “dona de casa insatisfeita” para definir Roberta Glass. Mas deixo para comentar essa questão mais adiante, e vou em frente no relato da Wikipedia.

Enquanto a rica dona de casa Roberta toca sua vidinha em uma bela casa em Fort Lee, a aventureira Susan está em um hotel de Atlantic City, a cidade cheia de cassinos 200 quilômetros ao Sul de Nova York, com o mafioso Bruce Meeker (o papel de Richard Hell). Pela manhã, enquanto o sujeito ainda dorme, Susan lê exatamente a mesma seção de anúncios do tablóide que Roberta costuma ler. Ela rouba de um dos bolsos dele um par de grandes, impressionantes brincos, e sai de fininho do quarto, deixando o mafioso dormindo. No corredor, passa por um sujeito com jeito bastante sinistro – veremos depois que ele se chama Wayne Nolan (o papel de Bill Patton.) Ele repara bastante na jaqueta bordada, bem extravagante, tipo cheguei! que a moça está usando.

Ao chegar a Nova York, Susan coloca um dos grandes brincos e enfia o outro na sua maleta redonda, extravagante, tipo cheguei!, que ela enfia num guarda-volumes no terminal de transporte. Visita uma amiga, Crystal (Anna Levine), que trabalha como assistente de um mágico em um nightclub bem descolado, o Magic Club, e pede para ficar na casa dela por uma noite.

O espectador a essa altura já percebeu que Susan não tem casa – é literalmente uma andarilha, uma “intinerante”. E tudo nela é bem extravagante, tipo cheguei!

O mesmo jornal em que são publicados os pequenos anúncios classificados com o título “Procura-se Susan Desesperadamente” informa em manchete que o conhecido mafioso Bruce Meeker foi encontrado morto em um quarto de hotel em Atlantic City.

A dona de casa bate a cabeça, tem perda de memória…

No mais recente classificado da série “Procura-se Susan Desesperadamente”, Jim, o namorado da moça, havia marcado encontro em determinado dia, em determinada hora, no Battery Pàrk, no Sul de Manhattan, perto do Rio Hudson. Roberta vai até lá, na tentativa de finalmente saber quem é essa Susan procurada desesperadamente. Ela vê o encontro de Susan e Jim – assim como nós, os espectadores.

O encontro dos amantes é alegre, afetuoso, apaixonado – mas rapidíssimo. Jim informa que está indo com sua banda para um show em Buffalo. Deixa com ela o telefone de seu grande amigo Dez, e diz que, caso Susan precise de ajuda, precise de qualquer coisa, deve ligar para ele.

Fascinada com aquela mulher tão absolutamente diferente dela, Roberta segue Susan pelas ruas do East Village. Vê que ela entra em uma espécie de brechó, só de roupas para gente louca, excêntrica, descolada. Atraída por um par de botas absolutamente cheguei!, Susan sugere ao rapaz da loja trocá-los por sua jaqueta ultra hiper chamativa – e argumenta que ela pertenceu a Jimi Hendrix. O cara topa.

Roberta tenta continuar seguindo Susan, mas acabando perdendo a moça de vista. Volta então à loja e compra a tal jaqueta – que o lojista, para valorizar o objeto, diz que pertenceu a Elvis!

Em um bolso da jaqueta, estão o papel com o telefone de Dez, o amigo de Jim, e também a chave do armário do terminal em que Susan havia guardado sua gigantesca maleta contendo um brinco gigantesco (e valiosérrimo, como veremos mais tarde).

Com a intenção de encontrar Susan e devolver para ela a chave, Roberta coloca no mesmo tablóide um novo anúncio de “Procura-se Susan Desesperadamente”, marcando como lugar de encontro o mesmo Battery Park.

De Buffalo, onde foi fazer show com sua banda, Jim lê sobre a morte do mafioso Meeker. Temendo que algo de muito ruim pudesse acontecer com Susan, que estivera com o sujeito em Atlantic City, Jim telefona para o grande amigo Dez (o papel, como já foi dito, de Aidan Quinn). Explica a situação, e pede para ele ir ao Battery Park naquele horário marcado no jornal, encontre Susan e a proteja, para o caso de alguém ligado ao mafioso morto estiver por lá. Como Dez nunca havia estado com Susan, Jim a descreve: ela é loura, tal altura, e estará usando uma jaqueta muito doidona assim, assado.

E aí, quando o filme está com uns 28 de seus 104 minutos, vem a sequência que é um grande clímax, e define tudo o que virá a partir daí.

No horário marcado, Roberta – usando a jaqueta de Susan – está no Battery Park. E é abordada pelo sujeito com jeitão sinistro, Nolan, que havia visto Susan sair do quarto de Meeker no hotel de Atlantic City com aquela jaqueta. Susan chega ao lugar e vê a mulher que usa sua jaqueta sendo abordada por um mafioso – mas não consegue chegar perto dela, porque naquele exato momento é presa por policiais, chamados para atender ao chamado do taxista que tinha feito um longo trajeto com aquela loura louca que saíra correndo seu pagar.

Susan é levada presa.

Ao tentar fugir da aproximação do desconhecido sinistro, Roberta cai, bate fortemente a cabeça no chão e desmaia.

Neste exato momento chega Dez. Vê a moça loura caída no chão usando a jaqueta descrita pelo amigo e vai socorrê-la.

Roberta sai do desmaio sem saber quem é – amnésia pelo choque. O rapaz que a socorre a chama como Susan – e ela vai passando a acreditar que ela é a Susan que Dez descreve, com base em tudo que já ouvira Jim falar da namorada.

As duas mulheres passam a conhecer um outro universo

E pronto – estão dadas as condições para que surjam muitas e muitas e muitas confusões, complicações, problemas – e mais um porrilhão de coisas que não teria mais sentido relatar.

Sem relatar eventos em detalhes, no entanto, dá para dizer, sem que seja propriamente spoiler, que haverá muitas situações em que a mulher “recatada e do lar” – para usar a expressão que ouvimos tanto nos últimos anos – vai descobrir muitas coisas que simplesmente desconhecia até então. Inclusive um bom, gostoso, satisfatório sexo. E a aventureira doidinha, doidivana, por sua vez, vai experimentar, seguramente pela primeira vez na vida, alguns confortos da classe média alta.

Essa é, me parece, a essência do filme. Usa-se o artifício da identidade errada, trocada – uma pessoa que é tomada por outra – para se falar da descoberta de um mundo desconhecido pelas duas personagens centrais da história. Tanto Roberta quanto Susan ficam conhecendo novos universos.

E, em alguns momentos, trocam de papéis.

Nisso, Procura-se Susan Desesperdamente me fez lembrar de um filme delicioso que talvez seja um dos menos incensados do grande Billy Wilder, Beija-me, Idiota/Kiss Me, Stupid, de 1964. Nele, duas mulheres vivem um momento em que trocam de papéis – a puta interpretada por Kim Novak vive uma noite de dona de casa, e a dona de casa feita por Felicia Farr tem uma noite de puta.

E aqui volto àquela coisa de a Wikipedia usar a expressão “unfulfilled housewife”, dona de casa insatisfeita, para definir a personagem interpretada com tanto brilho por Rosanna Arquette. Leonard Maltin e também Roger Ebert usam expressão parecida, “bored suburban housewife”, rica dona de casa entediada.

Discordo dos termos “insatisfeita” e “entediada” – e considero essa questão bem importante.

A Roberta do início do filme parece viver feliz com o marido businessman, sempre ocupado com seu negócio de vender banheiras de hidromassagem, sem tempo para ela e que, como saberemos quando a narrativa já está bem avançada, tem uma amante.

Ela não demonstra insatisfação, tédio. Ao contrário: parece feliz. Parece considerar sua vida – confortável, numa belíssima casa – como a realização de um sonho, talvez o tal sonho americano.

Seguramente nem sabia que, para muita gente, aquela vida dela era um horror, uma escravidão – dourada, talvez, mas escravidão. Nem sabia que existem outras formas de vida, mais agitadas, mais divertidas – e felizes.

Ela se distraía com os anúncios classificados com aquele título atraente como tantas donas de casas absolutamente felizes se distraem com as novelas de TV, com as histórias românticas de livrinhos para donas de casa absolutamente felizes.

Até que um belo dia ela sai da sua vidinha e entra no universo da outra. E fica fascinada com aquele mundo que ela desconhecia.

Coincidências, coincidências, o cinema e a música…

Por causa da coisa da troca de papéis, me lembrei, como disse, de Beija-me, Idiota. E me lembrei também de Depois de Horas/After Hours (1985), do grande Martin Scorsese. Aqui, uma pacata, caretinha dona de casa de Nova Jersey atravessa o Rio Hudson e conhece um admirável mundo novo nos pedaços mais descolados, moderninhos, agitados, doidões de Manhattan. Experiência parecida tem o protagonista de After Hours, o caretinha, certinho, quadradinho processador de textos Paul Hackett, interpretado por Griffin Dunne. Como bem sintetizou um leitor do IMDb, ao visitar o Soho para se encontrar com uma garota, o rapaz “se vê preso em um turbilhão assustadoramente surreal de coincidências improváveis e circunstâncias ridículas”.

Há quem diga que coincidências não existem, há quem diga que as coincidências são uma maneira de Deus ficar anônimo, despercebido. É fascinante ver que os dois filmes, este Desperately Seeking Susan e After Hours se passam nas mesmas regiões da grande metrópole, abordam os mesmos tempos e tems, foram lançados no mesmo ano, 1985… e nos dois está Rosanna Arquette!

Essa simpática nova-iorquina da classe de 1959 tem hoje – março de 2026 – 168 títulos como atriz na filmografia. Já se aventurou duas vezes pela direção – em 2002, dirigiu o documentário Searching for Debra Winger. Nossa, dá vontade de ver esse filme, sobre essa atriz absolutamente extraordinária… E em 2005 fez para a TV um documentário com o gostoso título All We Are Saying sobre música, músicos. Diz o IMDb: “Por meio de uma série de conversas íntimas, mais de 50 lendas musicais, novos artistas e especialistas da indústria musical revelam o que os inspira, suas dificuldades pessoais para equilibrar relacionamentos e família enquanto trabalham na estrada e o estado da indústria musical no século 21.” Diacho! Também dá vontade de ver.

Cinema & música – as duas artes se complementam, de enroscam, se entrelaçam.

Rosanna Arquette é uma atriz que, pelo jeito, adora música. Madonna é uma superstar da música, da dança, do comportamento, que a partir deste filme da então jovem diretora Susan Seidelman, virou também artista de cinema.

O IMDb registra que Madonna aparece na tela em 134 títulos – mas é claro que a imensa, imensa maioria deles é de clips musicais. Mas ele teve grandes momentos no cinema propriamente dito. Está ótima no divertidíssimo, excelente Uma Equipe Muito Especial/A League of Their Own (1992), de Penny Marshall, sobre a primeira liga profissional feminina de beisebol, durante a Segunda Guerra Mundial. Brilhou no papel de Eva Perón na adaptação de Alan Parker da peça musical de Tim Rice, Evita (1996).

E provou que também sabe dirigir com W.E., no Brasil W.E – O Romance do Século (2011), em que contou a história do amor entre Wallis e Edward (daí o título). Para quem não identifica imediatamente, Walllis Simpson e Edward Albert Christian George Andrew Patrick David, que abriu mão do trono da Inglaterra e do Império Britânico, com meio bilhão de súditos planeta afora, para manter seu casamento com a plebéia americana casada. Edward VIII, tio da Rainha Elizabeth II, não é nenhuma flor que se cheire, de jeito algum. Chegou a demonstrar simpatias pelo nazismo. Mas o filme que Madonna escreveu com Alek Keshishian e dirigiu é uma beleza, suntuoso, brilhante.

Pauline Kael detestou. Roger Ebert se divertiu muito

Este Procura-se Susan Desesperadamente não recebeu montes de prêmios – foram apenas dois, o Bafta para Rosanna Arquette e o prêmio da National Film Preservation Board, e mais 6 indicações. Mas teve sucesso de público – o 31º de maior bilheteria nos Estados Unidos no ano do lançamento – e de crítica. Vincent Canby, o respeitadíssimo crítico do New York Times, o considerou um dos melhores filmes do ano. Mais tarde, as revistas New Musical Express e Rolling Stone o incluíram na lista de melhores da década – assim como o livro Movies of the 80s. Em 2003, foi selecionado para ser preservado pela Biblioteca do Congresso dos EUA, por ser “culturalmente, historicamente e esteticamente significante”.

Diante desse reconhecimento do valor do filme ao final da década, e já neste século, fica especialmente interessante saber como ele foi recebido na época do lançamento.

Leonard Maltin deu a ele 3 estrelas em 4: “Comédia deliciosamente excêntrica, original, sobre uma rica dona de casa entediada cuja fascinação por uma personagem kooky sobre a qual ela lê nos anúncios pessoais a levar a ser confundida com a própria mulher. Uma espécie de filme underground de grande escala, inventivamente dirigido por Seidelman, embora ele não suspenda sua animação até o fim”.

Hum… Não tive essa impressão de que o filme perde força no final, não…

“Kooky” é o adjetivo que Maltin usa para descrever Susan, a personagem interpretada por Madonna. Kooky – nem o Michaelis nem o Exitus tem uma tradução para o termo. O Dictionary of English Language and Culture da Longman nos explica que é uma gíria americana para “estranho; que se comporta de maneira tola, pouco usual”. A Wikipedia usa “bohemian drifter”, literalmente “andarilha boêmia”.

Sem dúvida, não é muito fácil definir em uma única palavra o que a Susan de Madonna é. Creio que uma maneira bem simples de explicar quem é Susan é dizer que ela é uma mulher bem parecida com Madonna…

E vamos à Dona Pauline Kael. Eis o que ela diz sobre o filme, na tradução de Marcos Santarrita e Alda Porto para a edição brasileira de 1001 Noites no Cinema:

“Passado no mundo punk, é uma fantasia de erro de identidade sobre uma jovem de olhos de corça, Roberta (Rosanna Arquette), dona de casa classe-média de Nova Jersey, que adquire uma fixação por uma nômade chamada Susan (feita pela estrela do rock Madonna). Esta tentativa de comédia maluca charmosa foi dirigida por Susan Seidelman, que arrasa com os atores. Toda a capacidade deles de reagir é cortada – nada parece ocorrer com eles. Não há subtexto – nada. Essa platitude nos deixa de queixo caído, mas parece ter sido aceita pelo público como pós-modernismo new-wave. Ninguém se salva, com exceção de Madonna (que se movimenta com realeza, uma deusa indolente, vagabunda) e do fotógrafo Edward Lachman, cuja iluminação dá às lojas e ruas do East Village uma beleza funk – como uma pintura expressionista de esqualidez de neon e pirulitos. As transações entre as pessoas na tela são de pasmar (e muitas vezes em confusa câmara lenta, como um vídeo de rock metido a poético). O roteiro é de Leora Barish. O elenco inclui Robert Joy, Aidan Quinn, Mark Blum, Laurie Metcalf, Will Patton e o comediante Steven Wright; há também aparições de Richard Hell, Anne Carlisle, Richard Edson, Ann Magnusson, John Lurie, Shirley Stoler, Rockets Redglare (como motorista de táxi) e outras celebridades ‘da turma’.”

Vixe! A prima donna estava furiosa…

A edição brasileira cortou fora, mas no livro original, 5001 Nights at the Movies, o verbete termina dizendo que, “para uma discussão mais extensa”, pode-se ler o livro State of the Art. Não sou o infeliz possuidor de State of the Art, mas acho interessante que Dame Pauline Kael tenha usado seu precioso tempo para meter o pau no filme no seu outro livro…

Este meu texto já está grande demais, mas, depois dessa diatribe de Pauline Kael, é preciso registrar um pouco do que diz o grande Roger Ebert. Ele dá 3 estrelas em 4 ao filme:

“Desperately Seeking Susan é um filme que começa com essas três palavras, em um anúncio classificado. Uma hora e um lugar são sugeridos para que Susan possa se encontrar com a pessoa que está desesperadamente procurando por ela. Uma dona de casa entediada (Rosanna Arquette) vê o anúncio e fica consumida pela curiosidade. Quem é Susan, e quem está procurando por ela, e por quê? Então Arquette aparece no lugar do rendez-vous, vê Susan (Madonna), e inadvertidamente se vê tão envolvida em seu mundo que por um tempo ela até vira Susan. Parece complicado, mas, acredite, isso não é nada comparado às complexidades deste filme. Desperately Seeking Susan é uma comédia maluca baseada em vários casos de identidade errada.”

Que maravilha! Roger Ebert consegue sintetizar em 10 linhas o que a Wikipedia – e eu – levamos umas 100 para relatar!

Depois de mais umas 10 linhas, Ebert diz: “Mas chega da trama. Eu nem sonharia em tentar explicar como Arquette termina sendo cortada ao meio por um mágico de nightclub. A trama não é o que mais importa, de qualquer forma; depois que você compreende que o filme vai ser uma série de reversos duplos, você relaxa e deixa as coisas acontecerem. A trama é tão imprevisível que, de uma certa maneira, é previsível: essa é a parte mais fraca do filme. Do que eu gostei em Desperately Seeking Susan foi a forma alegra com que ele passeia por Nova York, apresentando para nós personagens inesquecíveis, interpretados por bons atores.”

Ah, meu, nada como um Ebert depois de uma Kael…

Para quem quiser, o delicioso texto completo do grande crítico está aqui.

E, depois de Roger Ebert, não há mais o que dizer.

A não ser registrar, mais uma vez, que me diverti demais vendo este filme pela primeira vez agora, 40 anos depois que ele foi feito.

Anotação em março de 2026

Procura-se Susan Desesperadamente/Desperately Seeking Susan

De Susan Seidelman, EUA, 1985

Com Rosanna Arquette (Roberta Glass),

Madonna (Susan Thomas),

Aidan Quinn (Dez),

Mark Blum (Gary, o marido de Riberta), Robert Joy (Jim, o namorado de Susan), Laurie Metcalf (Leslie, a irmã de Gary), Anna Levine (Crystal, a assistente do mágico, amiga de Susan), Bill Patton (Wayne Nolan), Peter Maloney (Ian, o mágico), Steven Wright (Larry), John Turturro (Ray, o mestre de cerimônias do Magic Club), Anne Carlisle (Victoria), Jose Santana (o dono da butique), Richard Hell (Bruce Meeker, o mafioso com quem Susan trepa), Annie Golden (a cantora da banda), Ann Magnuson (a vendedora de cigarros), Stanley Burns (o ventríloquo), Giancarlo Esposito (o camelô)

e, em participação especial, John Lurie (o saxofonista vizinho de Dez)

Argumento e roteiro Leora Barish

Fotografia Ed Lachman

Música Thomas Newman

Montagem Andrew Mondshein

Desenho de produção Santo Loquasto

Figurinos Santo Loquasto

Produção Sarah Pillsbury, Midge Sanford, Orion Pictures.

Cor, 104 min (1h44)

Fonte: 50 anos de filmes

Sergio Vaz

Jornalista, ex-editor-executivo do Jornal O Estado de S. Paulo e apreciador de filmes e editor do site 50 anos de filmes.

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Jornalista, ex-editor-executivo do Jornal O Estado de S. Paulo e apreciador de filmes e editor do site 50 anos de filmes.

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