
Terá sido este o acordo entre Lula e Alcolumbre? E o que mais estará por trás disso? No Brasil, ninguém perde o poder. No máximo, muda de cadeira.
Rodrigo Pacheco não conseguiu chegar ao STF. A indicação de Messias por Lula enfrentou resistência no Senado e acabou, historicamente, naufragando. Agora, poucos meses depois, o ex-presidente do Senado reaparece como candidato a uma vaga no Tribunal de Contas da União. Então, sem a toga do STF, ele ganha o consolo vitalício do TCU. Sim, pode não ter qualquer coisa com a reunião, mas a coincidência de datas é, no mínimo, curiosa.
O arranjo que culminou na indicação do senador Rodrigo Pacheco ao TCU escancara o pragmatismo das acomodações de poder na política de Brasília. O movimento, selado após a renúncia repentina de Bruno Dantas, resolve um entrave acumulado no Palácio do Planalto e na cúpula do Senado, garantindo a consolidação de alianças e o manutenção de pontes entre o presidente Lula e Davi Alcolumbre.
A indicação carrega uma simbologia clara de compensação e pacificação. Após as fortes arestas geradas pela frustração na indicação de Pacheco para a vaga no STF e pelo desgaste na sabatina de Jorge Messias imposto pelo Senado, o Palácio do Planalto encontrou no TCU a moeda perfeita para restabelecer o diálogo.
Sem a perspectiva da toga de imediato e diante da desistência da disputa pelo governo mineiro, a cadeira vitalícia de ministro funciona para Pacheco como uma saída honrosa e técnica, preservando seu trânsito político e conferindo-lhe uma posição de fiscalização sobre todo o Poder Executivo.
Por se tratar de uma vaga reservada à cota do próprio Senado Federal, a movimentação atendeu à lógica de preservação do corporativismo parlamentar. O amplo apoio demonstrado pela assinatura conjunta de lideranças do governo e da oposição evidencia como os espaços no TCU são tratados como ativos estratégicos da Casa.
A presença de nomes de espectros antagônicos – como Teresa Leitão, líder do governo Lula no Senado, e Rogério Marinho, líder da oposição – no mesmo documento confirma uma tradição bem estabelecida nas instituições brasileiras: a de garantir o abrigo vitalício de ex-presidentes do Congresso, convertendo tensões conjunturais em pactos de estabilidade e garantindo que o controle sobre órgãos de fiscalização permaneça sob a influência das próprias elites políticas.
A justificativa oficial de Alcolumbre é de uma previsibilidade quase poética. Pacheco teria conhecimento jurídico, experiência parlamentar e capacidade para compreender os problemas do Estado e da população. Tudo muito correto. Mas existe uma pergunta que a justificativa oficial não responde: por que agora? Por que, justamente, depois da reaproximação entre Lula e Alcolumbre?
E, sobretudo: o que foi acertado nos bastidores para que Lula e Alcolumbre voltassem a falar a mesma língua? Não há prova, até aqui, de que a indicação de Pacheco seja resultado de um acordo entre os dois. Mas há uma coincidência política que merece ser observada. No xadrez de Brasília, determinadas peças raramente se movimentam sem que outras sejam movimentadas ao mesmo tempo.
Pacheco perde o STF e ganha o TCU. Alcolumbre, depois de enfrentar Lula e ajudar a derrotar seu candidato ao Supremo, recompõe-se com o Planalto, certamente contando com o PT para se reeleger presidente do Senado. E o governo, depois de duas derrotas no Senado, volta a encontrar espaço para negociar. Talvez seja apenas política. Ou talvez seja política mais alguma coisa. O problema é que o brasileiro já conhece muito bem esse roteiro. Aqui, cargos de enorme poder são tratados como prêmio de consolação para quem deixa a política, mas não necessariamente deixa o poder.
Deputado vira ministro. Senador vira ministro de tribunal. Presidente de Casa Legislativa vira conselheiro ou ocupa outra posição estratégica. E assim o Poder público cria sua própria esteira de reaproveitamento. Ninguém desce. É realocado.
Pacheco pode até ter todos os requisitos para exercer o cargo. Essa é outra discussão. A questão é saber se uma vaga vitalícia em um tribunal que fiscaliza bilhões de reais em recursos públicos deve ser também a estação seguinte de uma carreira política interrompida no caminho para o Supremo.
E há uma ironia adicional: o Senado que rejeitou o nome de Jorge Messias — uma derrota histórica para Lula — agora pode aprovar, sem grande dificuldade, um ex-presidente da própria Casa para o TCU. A política é realmente capaz de produzir milagres… ou acordos.
O ponto é que acordos políticos não são necessariamente ilegítimos. Faz parte da democracia negociar. O que não combina com uma República é negociar interesses públicos como se fossem favores particulares. Por isso, não basta perguntar quem será o próximo ministro do TCU. É preciso perguntar o que essa indicação representa no rearranjo de forças entre Lula, Alcolumbre e o Congresso.
Porque uma vaga no TCU não é apenas uma cadeira. É poder. É influência. É estabilidade vitalícia. É um mandato que pode atravessar governos e eleições. E, principalmente, é uma posição que não depende mais do voto do eleitor. Rodrigo Pacheco pode não ter conseguido a toga do Supremo. Mas, no Brasil, quando uma porta se fecha, quase sempre aparece outra. Às vezes, até mais confortável.
Resta saber se estamos diante apenas de uma escolha política legítima ou de uma peça de uma negociação maior. Terá sido este o acordo entre Lula e Alcolumbre? E, se foi, a pergunta inevitável é outra: o que mais foi colocado sobre a mesa?
Porque em Brasília, muitas vezes, o que está publicado é apenas o resultado.
O acordo mesmo continua nos bastidores.

