
A recente decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas trouxe à tona um debate que, para muitos especialistas em segurança pública, inteligência, prevenção a fraudes e combate ao crime organizado, já deveria ter ocorrido há muito tempo.
A discussão não está apenas na nomenclatura jurídica ou diplomática. Ela está na essência das práticas adotadas por essas organizações criminosas e nos efeitos que produzem sobre a sociedade.
Quem observa a atuação dessas facções sem filtros ideológicos percebe que o método utilizado há décadas é baseado exatamente naquilo que define o terrorismo: o uso sistemático da violência, da intimidação e do medo para controlar territórios, influenciar comportamentos, eliminar opositores e gerar submissão.
Quando uma organização cria seus próprios “tribunais do crime” para julgar e sentenciar pessoas à morte sem qualquer garantia de defesa, o objetivo não é apenas punir um indivíduo. É transmitir uma mensagem de medo para toda a comunidade.
Quando comerciantes são coagidos a aceitar a participação de criminosos em seus negócios para transformar recursos ilícitos em dinheiro aparentemente legal, o objetivo não é apenas lavar dinheiro. É estabelecer controle econômico sobre uma região inteira.
Quando moradores são expulsos de suas casas, empresários são extorquidos, testemunhas são silenciadas e agentes públicos são ameaçados, o que se busca é a imposição do poder pelo terror.
Sob essa perspectiva, a diferença entre as práticas de facções criminosas brasileiras e organizações terroristas internacionalmente conhecidas, como a Hezbollah ou a Al-Qaeda, torna-se cada vez mais uma discussão de natureza jurídica do que operacional. Os métodos empregados possuem características semelhantes: intimidação, violência exemplar, controle territorial, financiamento ilícito e disseminação do medo como instrumento de poder.
O terrorismo migrou para o ambiente digital
Entretanto, há um aspecto que ainda recebe pouca atenção da sociedade: a expansão dessas organizações para o ambiente digital.
O crime organizado brasileiro já compreendeu há muito tempo que o território físico possui limites. O ambiente virtual, por outro lado, oferece escala praticamente ilimitada.
As facções não dependem mais exclusivamente do tráfico de drogas, roubos de carga ou extorsões presenciais para financiar suas operações. Hoje, golpes digitais, fraudes bancárias, invasões de dispositivos, engenharia social, fraudes documentais, contas laranjas e esquemas de lavagem de dinheiro movimentam bilhões de reais todos os anos.
Nesse novo cenário, o criminoso que aplica um golpe por mensagem, cria uma central falsa de atendimento bancário ou recruta pessoas para emprestar contas bancárias pode estar inserido em uma cadeia muito maior do que imagina.
O dinheiro obtido em milhares de pequenas fraudes digitais frequentemente percorre uma complexa rede de ocultação financeira que alimenta organizações criminosas estruturadas, fortalece sua capacidade operacional e amplia seu poder de corrupção e violência.
Em outras palavras, a fraude digital deixou de ser apenas um crime patrimonial. Em muitos casos, tornou-se uma fonte de financiamento do crime organizado.
O elo invisível entre fraude e violência
Existe uma percepção equivocada de que golpes digitais são crimes “sem violência”. Afinal, a vítima não vê uma arma, não sofre uma agressão física e muitas vezes sequer conhece o criminoso.
Mas a realidade é mais complexa.
O valor desviado de uma vítima em uma fraude eletrônica pode financiar a compra de armas, a manutenção de integrantes de facções, a corrupção de agentes públicos, a expansão territorial do crime e até mesmo execuções ordenadas por lideranças criminosas.
O dinheiro é o combustível que mantém essas estruturas funcionando.
Por isso, combater fraudes digitais não é apenas proteger consumidores ou reduzir prejuízos financeiros para empresas. É também uma estratégia de enfraquecimento das organizações criminosas que se beneficiam desses recursos.
Cada conta bloqueada, cada laranja identificado, cada esquema de lavagem de dinheiro interrompido e cada fraude evitada representa uma redução da capacidade operacional dessas facções.
Um novo olhar sobre o problema
A classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pode gerar debates políticos, jurídicos e diplomáticos. Mas ela também oferece uma oportunidade importante: repensar a forma como enxergamos o crime organizado no século XXI.
As facções deixaram de ser apenas grupos envolvidos com tráfico de drogas. Hoje atuam como verdadeiras corporações criminosas multifacetadas, com presença física e digital, capacidade financeira sofisticada, influência transnacional e mecanismos próprios de intimidação social.
Ignorar o caráter terrorista de suas ações não altera a realidade vivida diariamente por milhões de brasileiros que convivem com ameaças, extorsões, violência e medo.
Da mesma forma, ignorar a ligação entre fraudes digitais e o financiamento dessas estruturas significa combater apenas os sintomas, sem atingir a fonte dos recursos que alimentam o problema.
O terrorismo contemporâneo não se manifesta apenas por explosões ou ataques espetaculares amplamente divulgados pela imprensa internacional. Ele também pode surgir na forma silenciosa do controle territorial, da execução sumária, da extorsão sistemática e da exploração do ambiente digital para financiar a perpetuação do medo.
E talvez seja exatamente essa a discussão que a sociedade brasileira precise enfrentar com mais maturidade, sem paixões ideológicas e com foco nos fatos.

