
A imigração da minha família não se deu para que viessem em busca de terras para arar, em busca de melhores oportunidades de vida. Minha avó foi uma das primeiras cirurgiãs dentistas formada na Universidade Russa de Leningrado. Veio para cá trazendo seus instrumentos costurados em um edredom.
Foi morar na rua Jaguaribe, ao lado da Santa Casa, de onde passou a atender as freiras e médicos, além dos imigrantes russos que se hospedavam em sua casa, já que abriu uma pensão para eles na mesma época em que chegou, de navio, com seus três filhos pequenos.
Eu a conheci lendo jornais, a Folha e o Estado, e escrevendo longas cartas (ou assim me pareciam), para discutir com os filhos sobre os assuntos lidos.
Portanto, ler jornal sempre foi “marca registrada” dos Belinky e eu não fugi à regra, assinante que fui do finado Jornal da Tarde, uma espécie de extrato do Estadão. Mais tarde, migrei para este, quando o primeiro deixou de existir.
Assino o Estadão até hoje e confesso que me dá muito prazer tê-lo em mãos às sextas, sábado, domingo e segunda-feira, lendo, em seu bojo, notícias que não envelhecem sobre descobertas científicas e que tais; notícias que não “bombam”, muito provavelmente por serem, em sua maioria, excelentes!
Assim, no dia 15 deste mês, eu soube que a Rádio Eldorado iria ser silenciada porque, ao que tudo indica, já não era “um bom negócio” para o patrão: o Estadão. A Rádio que se intitulava “A rádio dos melhores ouvintes” – quer um nome mais simpático para uma rádio, delegando aos ouvintes o bom gosto?
Isso não me espanta, pois é conhecida a dificuldade de perpetuação de bons empreendimentos nos dias de hoje.
Longe de ser uma rádio popular, era bastante elitista, tinha programas bastante sofisticados, com títulos como “Um piano ao cair da tarde”. Não é preciso pensar muito para deduzir que não muitas pessoas estão interessadas em apreciar um programa desses, dada a atual “estreiteza de horizontes”.
Nessa rádio, participei de concursos e, num deles, ganhei um final de semana, juntamente com meu marido, no Hotel Casa Grande, no Guarujá, tendo sido uma agradabilíssima experiência. Ganhei um CD incrível –de gravação e repertório escolhido por lá de músicas de Natal, as mais lindas, apreciadas no mundo inteiro, inclusive por quem não costuma comemorar essa festa – meu caso!
Tive uma crônica (que já publiquei aqui há muito tempo) lida no ar, que escrevi para o programa do Antônio Penteado Mendonça, que lá discorria sobre seguros, enfim, uma ligação afetiva das mais duradouras que eu acho deva ser a missão de uma boa rádio – no que me diz respeito, será, para sempre, uma linda e cara lembrança, uma perda efetiva de algo extremamente bom e raro atualmente!

