
Bateu uma saudade do tempo em que o leiteiro deixava o litro de leite na porta de casa pela manhã e ninguém ousava pegar. Era um tempo difícil, de política incerta, como o Brasil sempre foi. Mas havia respeito, moral e princípios.
Raramente se via a criminalidade atuando. A sociedade se cuidava. As crianças brincavam nas ruas, havia vida efervescente nos bairros.
As portas ficavam destrancadas durante o dia, à espera daquele som: “ô de casa! Estou entrando!”. Os muros eram baixos e as janelas ficavam sempre abertas.
Todo mundo se conhecia, se cumprimentava e se visitava.
A economia girava no mercadinho, adepto às cadernetas dos clientes fiéis. Era tudo na base do “fio do bigode”, na palavra firmada, sem contrato. E sempre sobrava uma balinha para a criança que ia comprar alguma coisa para a mãe, com o dinheiro todo amassadinho na mão.
Aliás, as crianças eram protegidas, todos olhavam por elas, sendo ou não filhos. Elas ajudavam em casa, trabalhavam, ajudando os pais ou nas ruas vendendo alguma coisa. Não era crime, nem demérito, era sobrevivência.
O verdureiro passava de carroça, trazendo produtos frescos quase todos dias. Tudo era orgânico e ninguém pagava por isso. O esterco era do próprio quintal, das galinhas e do cavalo.
Os casamentos reuniam a comunidade e todos ficavam felizes por recepcionar vizinhos. Amigos na verdade. Todo mundo de roupa nova, que as costureiras se apressavam em fazer. A economia local girava, dos botões ao cardápio, ao presente dos noivos.
O sol do verão convidava para a praia, bem cedinho. O cheiro do mar, as conchinhas e o peixe fresco no almoço. Tudo simples, sem fartura, mas gostoso. O sabor da mãe.
O caminho da escola era longo, demorado, sofrido, uma jornada que demorava passar para chegar às férias.
O cachorro de cada um latia nos quintais e todos sabiam seus nomes. Abanavam os rabos para quem os conhecia. Nenhum era bravo.
A Páscoa era um dia aguardado, uma festa de chocolate para um ovo bem pequeno, mas desejado. O gosto das coisas simples.
O Natal então, a fartura do possível, dos quitutes, da família reunida, dos abraços dos amigos.
Na temporada de chuvas, o bairro alagava, trazia infortúnio, barro para dentro de casa, mas também muitos banhos no quintal.
A brincadeira com o irmão, inesquecível. Muita conversa, brinquedos partilhados.
Mais tarde, bem mais tarde, com a adolescência brotando, a ida à matinê no cinema do bairro aos domingos. Sempre após o almoço. Dois filmes com intervalo para o drops Dulcora (embaladinhos um a um).
O ensaio para um começo de paixões e piscadelas. Depois os bailinhos no clube. E o preparo para a vida adulta.
De repente, toda a magia da infância se acaba. O mundo se torna menos sonhador. A realidade da sobrevivência e dos estudos bate à porta. A vida adulta começa.
A escolha da profissão, a ansiedade de uma vida cabe em um segundo. A escolha do outro, o viver junto. Tudo aprendizado. E passa rápido demais.
A saúde já não é a mesma. O país muda drasticamente. A política rouba a poesia.
Ficamos mais endurecidos, com medo do amanhã. Os valores da sociedade já não são os mesmos. Tudo mudou, ficou sem brilho.
O leite agora vem em caixinhas, misturado com água.
Os mercadinhos desapareceram, as verduras só nas feiras e supermercados, a preços de ouro. Tudo caro.
Para os políticos a regalia, o melhor. Para o povo as promessas, a resignação, mais trabalho, menos resultados e empregos. Menos liberdade. É o país da subtração, que adoece a alma.
A vida madura chega. A velhice acentua os vincos na pele, para todos. A beleza passa a existir, de outro modo, para quem a vê, através dos olhos cansados.
Onde foi que a gente se perdeu? Porque o tempo passou tão rápido e não pudemos detê-lo? É a vida. Simplesmente.
Histórias boas e ruins, com capítulos melhores e piores. É sempre assim, um ciclo sinuoso de perdas e ganhos.
A vida dói.
Mas para quem tem memórias a celebrar, é sempre uma festa para o espírito. Não existe vida boa ou ruim, existe vida. E eu vivi tudo isso e sigo em frente até o encontro com Deus

