18 de maio de 2026
Editorial

O alvo é o sobrenome. A forma, os vazamentos seletivos

Nas últimas semanas, a engrenagem político-midiática de Brasília parece ter encontrado seu novo objeto de fixação. O alvo da vez é a produção cinematográfica Dark Horse, cinebiografia que se propõe a registrar a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. Sob o pretexto de investigar o apoio financeiro do empresário Daniel Vorcaro ao longa-metragem, setores da oposição e consórcios de imprensa montaram um palanque de linchamento público contra o senador Flávio Bolsonaro, candidato de direita bem posicionado nas pesquisas.

No Brasil de hoje, parece existir uma nova regra não escrita: dependendo de quem você apoia politicamente, qualquer relação empresarial, cultural ou institucional passa automaticamente a ser tratada como suspeita. Não importa o contexto, o histórico ou a legalidade do ato. Basta haver conexão com determinado campo político para surgir a tentativa de transformar coincidências em conspirações.

Para compreender o caso sem as lentes do partidarismo cego, é preciso estabelecer o fato mais elementar e ignorado desta narrativa: estamos falando de um projeto 100% privado. Ao contrário da praxe que alimentou cineastas ideológicos durante as gestões petistas com a tal Lei Rouanet, a produção de Dark Horse não captou um único centavo de dinheiro público. Não há recursos do Fundo Setorial do Audiovisual, não há verbas ministeriais e não há o uso dos mecanismos da referida Lei Rouanet. O que houve foi a busca por patrocínio privado para uma obra privada.

Contudo, no Brasil contemporâneo, a lógica parece ter sido subvertida pela politização. Um investimento privado é subitamente transformado em peça de um suposto escândalo. Por quê? A resposta é simples e, ao mesmo tempo, alarmante: a proximidade, ainda que indireta, com o sobrenome de Flávio Bolsonaro.

A atuação de Flávio Bolsonaro no episódio é a mais natural que se poderia esperar de um filho e de uma liderança política ciosa de seu legado familiar: a defesa institucional da imagem de seu pai e o esforço para atrair investidores capazes de viabilizar uma produção com padrão hollywoodiano, dirigida por Cyrus Nowrasteh e estrelada por Jim Caviezel. O senador não prometeu vantagens governamentais, não intermediou contratos com a máquina pública e tampouco operou em agendas secretas. Seu papel limitou-se a agregar o peso de seu sobrenome para atrair capital legítimo ao mercado audiovisual brasileiro.

O cinema, os documentários e as produções culturais sempre foram usados para defender visões de mundo. A esquerda faz isso há décadas, com apoio estatal, leis de incentivo, fundações, universidades, editais públicos, ONGs e patrocínios privados. Filmes claramente ideológicos foram celebrados durante anos sem que ninguém enxergasse nisso ameaça institucional. Pelo contrário: chamavam de “manifestação artística”, “pluralidade” e “liberdade de expressão”.

Se a substância do financiamento privado é irrepreensível, o método de sua divulgação é escandaloso. O que assistimos no Brasil de hoje é a consolidação de um “manicômio processual”, onde o segredo de Justiça tornou-se uma ficção conveniente e os vazamentos de áudios e mensagens ocorrem de forma milimetricamente selecionada.

É aqui que entra o elemento mais preocupante de todo o episódio: a forte suspeita de vazamento seletivo e estrategicamente cronometrado, que parece emanar de fontes dentro de instituições como a Polícia Federal e, por vezes, com o endosso tácito de instâncias do Judiciário. Informações fragmentadas, descontextualizadas e parte de investigações sigilosas chegam à imprensa como se fossem a prova cabal de uma conspiração. Não são! São peças de um quebra-cabeças entregues de forma calculada para que a opinião pública monte uma imagem distorcida, antes mesmo que a defesa possa ter acesso aos autos e exercer o seu direito constitucional.

Este modus operandi — a espetacularização via vazamentos — corrói a confiança nas instituições e inverte o pilar da justiça: a presunção de inocência é substituída pelo julgamento sumário pela mídia. Reputações são destruídas, negócios são prejudicados e a opinião pública é manipulada, tudo em nome de uma agenda política que parece não ter limites.

Quando trechos de investigações aparecem antes mesmo de qualquer conclusão formal, cria-se um ambiente em que a reputação passa a ser destruída previamente no tribunal da opinião pública. E a coincidência recorrente de vazamentos envolvendo nomes ligados ao bolsonarismo, inevitavelmente, levanta questionamentos sobre a atuação de setores da Polícia Federal e do Supremo Tribunal Federal.

A opinião pública precisa se questionar: por que trechos de conversas telefônicas e mensagens de WhatsApp protegidas por sigilo constitucional são entregues de bandeja a veículos de imprensa justamente no momento em que Flávio Bolsonaro consolida sua pré-candidatura? A resposta é evidente. Trata-se de um expediente repetido à exaustão nos últimos anos: o uso do aparato de investigação do Estado – no caso, a Polícia Federal e do topo do Judiciário (STF) – para assassinar reputações por meio de um “varejo de indiscrições”.

Questionar vazamentos não significa atacar instituições. Pelo contrário. Significa defender que instituições ajam dentro dos limites legais, preservando imparcialidade, sigilo processual e segurança jurídica. Democracias maduras não convivem bem com investigações transformadas em espetáculos permanentes.

Essa tática de desgaste político, operada à sombra das instituições que deveriam garantir a neutralidade da lei, visa unicamente emparedar a oposição e criar um fato político artificial para alimentar o palanque governista. Se há um escândalo real a ser investigado no “Caso Master”, ele reside nas relações espúrias que o atual governo e seus interlocutores mantinham com o sistema financeiro, e não na captação de patrocínio para um filme de cinema.

A insistência de Flávio Bolsonaro em pedir a imediata instalação da CPI do Banco Master é a maior prova de sua tranquilidade. Quem deve, esconde-se atrás de manobras regimentais; quem tem a verdade a seu favor, exige a luz do sol e o escrutínio público. Dark Horse incomoda a esquerda não pelo seu financiamento, mas pelo seu potencial de registrar a história sob uma ótica que eles tentam desesperadamente apagar. No tribunal da narrativa política, o filme é privado, o apoio é legítimo e o vazamento é a verdadeira ilegalidade que o Brasil precisa combater.

E o “batom na cueca” da vez é: por que o PT votou em bloco contra a abertura da CPI do Master?

Valter Bernat

Advogado, analista de TI e editor do site.

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Advogado, analista de TI e editor do site.

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