
De: Ruy Guerra, Brasil, 1962.
2.5 out of 5.0 stars2.5
(Disponível no YouTube em 10/2025.)
A sequência é bem longa – e absurdamente, abusadissimamente impressionante, impactante. A câmara fica rodando em torno da mulher loura, inteiramente nua, na praia. Ela havia tirado toda a roupa e a deixado sobre a areia para entrar no mar. O homem que tinha ido com ela até ali, dirigindo um Buick conversível, resolveu então pegar o montinho de roupa – e se afastar vários metros da mulher. Quando ela saiu do mar, não havia como se cobrir.
Totalmente surpresa, entrando em pânico, ela correu atrás do carro.
O motorista exibia com a mão direita levantada bem para cima a calcinha da mulher.
Ele diminuiu a velocidade, para permitir que ela chegasse mais perto do carro – e então começou a dar voltas em torno dela.
A câmara – como se estivesse colocada no carro – dava voltas em torno da mulher desesperada.
Ela já havia caído algumas vezes, estava com areia no corpo molhado – e os grãos de areia eram as únicas coisas que cobriam sua nudez.
A sequência inteira – que passaria para a História como a da primeira nudez frontal do cinema brasileiro – dura 15 minutos. Vai dos 17 aos 32 minutos dos 100 de duração de Os Cafajestes, que o moçambicano-carioca Ruy Guerra lançou em 1962. A atriz que interpreta aquela pobre mulher, Leda, é uma Norma Bengell de cabelos louros, bem mais longos e mais claros do que os que mostrou em O Pagador de Promessas, daquele mesmo ano, ou em Noite Vazia, de 1964.
O ator que faz Jandir, o cafajeste que comete essa absurda, insana, repugnante cafajestada, é Jece Valadão – e é muito impressionante. É um caso extraordinário do tal do physique du rôle, o tipo físico perfeito para o papel: Jece Valadão dá a impressão de que nasceu para interpretar o cafajeste criado por Ruy Guerra e Miguel Torres, que assinam o roteiro original, ou seja, baseado em história criada diretamente para o filme.
A carioca Norma estava, em 1962, no esplendor dos 27 anos. O carioca Jece, que foi também produtor executivo de Os Cafajestes, tinha 32. Ruy Guerra, nascido em Lourenço Marques em 1931 e radicado no Rio de Janeiro em 1958, estava com 31 anos. Eram todos jovens demais. Novos demais, naquele Brasil em que a capital era nova, o cinema era novo, a bossa era nova – antes que, dois anos depois do lançamento do filme, a Quarta-feira de Cinzas se abatesse sobre o pais, com a quartelada de 1º de abril de 1964.

“O primeiro filme de vanguarda realizado no Brasil”
O respeitadíssimo José Lino Grünenwald escreveu no Jornal Letras de dezembro de 1962 uma longa, detalhada, apaixonada crítica:
“Os Cafajestes, com a possível exceção, na época, de Limite e de uma ou outra experiência desconhecida para nós, é o primeiro filme de vanguarda realizado no Brasil. O primeiro filme nosso a se colocar, de forma radical, numa linha moderna de invenção, em termos de reformulação estrutural. É quando o cinema tenta inaugurar uma linguagem autônoma, dentro de sua própria vivência formativa, sem alienar os elementos válidos em favor de uma história que remete conceitualmente a uma experiência anterior ao filme em si. Trata-se da independência buscada por alguns cineastas básicos da atualidade, como Alain Resnais, Michelangelo Antonioni, Jean-Luc Godard ou Jean Rouch (do qual, sem querer discutir o resultado da comunicação em seus efeitos, Chronique d’un été é um esforço aceitável nesse sentido).
“Quando se assiste aos últimos filmes desses diretores, ou ao nosso Os Cafajestes, não é possível acompanhar a sua dialética estrutural pela engrenagem do pensamento lógico-analítico, mas sim por uma apreensão sintético-analógica. De nada vale perseguir o princípio-meio-fim de uma história de fundo quando a forma, condicionando o fundo, já aboliu esse tipo de manifestação denotativa e estamos frente a uma linguagem conotativa.
“Não se negue, por outro lado, a influência dos cineastas citados sobre Os Cafajestes. Nem também a fatigante ginástica para ‘não querer’ narrar um acontecimento que está na imaginação dos autores. É um filme na vertente de A Aventura e de Acossado, mais organicamente vinculados ao problema de comportamento e do trabalho com o ator num complexo fenomenológico do estar, em lugar da evolução psicológica de um ser predeterminado pelas modulações semânticas da linguagem verbal. Mas as mencionadas influências que Ruy Guerra sofreu, consciente ou não, são mais do que benéficas, num critério de assimilação de processos, e não de simples repetição de efeitos. Mais do que benéficas, necessárias. Pior seria a influência de diretores, grandes e/ou importantes, que já se demitiram de uma dialética de processos ou mesmo nunca a enfrentaram: John Ford, Fellini, Visconti, René Clair etc.
“Algumas passagens muito bem construídas invocam a inteligência criativa, bem municiada pela experiência com fitas modernas de vanguarda. Logo no início, o difuso em boa consumação plástica de claro-escuro, as imagens que se mesclam aos letreiros e toda a cena de Jece Valadão com Glauce Rocha. A câmera, sempre ágil, buscando o ângulo mais insinuante, e o jogo de iluminação preciso, sem nada dever aos grandes profissionais alienígenas. A noção de fluência e ritmo é a mais depurada possível nesse intróito que, por si só, já justificaria um filme brasileiro.
“A película de Ruy Guerra não está privada dos chamados defeitos. Quando Daniel Filho corre pelo branco das areias, desfecha tiros pelo ar, cai ao solo em prantos e logo a jovem se atira frenética ao seu corpo, toda essa seqüência soa falsa. Também quando os diálogos tentam, fragmentariamente, situar as relações de determinados personagens com outros, não encontramos uma eficácia plena na seleção de dados para uma informação telegráfica.
“Na seqüência do forte, em que os dois protagonistas fumam e passeiam pelos muros brancos, temos talvez o ponto mais ‘importante’ da fita: a dinâmica do instrumento forja a sensação ampla do estático psicológico da ambiência, sem sair do plano intimista e com a sabedoria intuitiva de reger um tempo externo, físico (a duração de cada imagem), em função do tempo interno, de adequação psicológica ao que os elementos transmitem, É quase uma espécie de tempo metafísico, já denotado pela magistral sequência dos rochedos em A Aventura e, aqui, apresentado com pouca semelhança dos recursos empregados na película italiana. Já o trecho mais famoso e discutido – a mulher nua (Norma Bengell) na praia, cercada pelo automóvel que gira em torno dela, com os berros e o metralhar da máquina fotográfica – oferece, em oposto, um máximo de dinamismo exterior. A câmera circulando sem cessar, a faixa sonora retinindo inquieta e a imagem furiosa. Cria uma verdadeira catarse cinematográfica e conduz a platéia à exasperação, levando também a algumas implicações profundas, a partir de um antierotismo utilizando o próprio nu. É a cena mais original do filme, tanto na forma como no fundo.
“O uso da matéria sonora ganha destaque dentro das perspectivas de vanguarda. De saída, a eficiente assimilação de uma técnica moderna: o desencontro propositado dos diálogos entre si e com a imagem. Esta muitas vezes se adianta ou antevê o que se fala. São novos focos de relações e um conflito diacrônico entre os elementos visuais e sonoros. Ou, então, a fuga a um realismo imediato da correspondência do ruído com a distância da pessoa ou do objeto que o emite. Um exemplo é a cena final, com o protagonista se afastando do carro e avançando em direção ao espectador, enquanto o rádio, com as notícias, embora já longe, continua a ser ouvido alto. Aqui está um arremate anti-discursivo para o que o diretor já estava proporcionando pelo próprio contexto de imagem-som-movimento do filme: o delírio da alienação propiciada por uma sociedade capitalista-industrial, com a subversão de todos os índices funcionais de ordem e distribuição.
“Por fim ressalte-se o trabalho com os atores: Jece Valadão, Norma Bengell e Daniel Filho (este com alguns excessos), adaptados, adequados a um novo estilo de interpretação. E a magnífica contribuição da fotografia de Tony Rabatoni e do acompanhamento musical de Luiz Bonfá.”
Esta crítica é uma das dezenas de autoria de José Lino Grünenwald que foram reunidas no livro Um filme é um filme – O cinema de vanguarda dos anos 60, organizada por Ruy Castro e editada pela Companhia das Letras em 2001.

“Causou sensação entre a crítica, o público, e a Censura”
Eis o verbete sobre Os Cafajestes do livro História Ilustrada dos Filmes Brasileiros 1929-1988, de Salvyano Cavalcanti de Paiva:
“A vagabundagem de quatro personagens desocupados da classe média é o tema de Os Cafajestes. Dois homens e duas mulheres. O primeiro homem é pobre, mas cobiça um Buick, símbolo da burguesia à qual pertence seu companheiro… Para seduzir a amante do seu tio, o rapaz a fotografa nua numa praia deserta. Como o estratagema fracassa, eles tentam repetir o feito com outra garota, da qual está enamorado o burguesinho. O sonho da bela americana desaparece, mas isto não passa de um acidente de percurso. Os Cafajestes causou sensação entre a crítica, o público, e a Censura – esta, por causa da seqüência do nu de Norma Bengell ao ser fotocurrada na praia, das mais eróticas já realizadas. Na forma e no conteúdo, notória influência da nouvelle vague francesa. O argumento, com os diálogos repletos de vida, escrito por Miguel Torres, mereceu tratamento feliz do diretor Ruy Guerra. Outro ponto de realce criativo é a fotografia de Tony Rabatoni, também o sublinhamento musical de Luís Bonfá. E um bom elenco: Jece Valadão, Norma Bengell, Daniel Filho, Lucy de Carvalho e Glauce Rocha, todos com zelo profissional. A sequência de Norma Bengell nua é também a mais demorada do gênero na história do cinema: ela é perseguida pela câmara indiscreta durante mais de cinco minutos numa apologia à Venus atemorizada. (Magnus Filmes, RJ).”
Mais de cinco minutos, diz o livro. Contei 15 com toda a sequência, desde que a personagem de Norma Bengell entra no mar até o corte final par o início de outra sequência completamente diferente.
Gostei muito da expressão “fotocurrada” que o autor criou. De fato, aquilo é uma curra, um estupro.
O Guia de Vídeo e DVD 2002 da Nova Cultura – um guia muito bom – deu 3 estrelas em 5 ao filme: “Vigarista e amigo fotógrafo levam mulher para tirar fotos em praia deserta com intenção de fazer chantagem. Primeiro trabalho no Brasil do diretor Guerra (nascido em Moçambique), um clássico do cinema novo. A sequência de Bengell nua na praia provocou escândalo e problemas com a censura.”
Sim, Os Cafajestes foi o primeiro longa-metragem dirigido por Ruy Guerra, mas não foi, a rigor, o primeiro trabalho do então jovem cineasta no país que escolheu para viver depois de uma temporada na França, onde estudou no respeitadíssimo IDHEC – Institut des Hautes Études Cinématographiques. Antes de estrear na direção, Ruy Guerra trabalhou como montador em outro clássico do cinema novo, Cinco Vezes Favela, e também em Esse Mundo é Meu, de Sérgio Ricardo.

A partir daqui, uma anotação bem pessoal
Nunca tinha visto Os Cafajestes – e nem saberia dizer por quê. Minhas anotações mostram que vi Os Fuzis, o segundo filme dirigido por Ruy Guerra, de 1964, nada menos de quatro vezes, entre 1965 e 1969. Já Os Cafajestes, só fui ver agora, 63 anos após seu lançamento, porque queria ter a anotação sobre o filme neste meu site. Não vi com nenhum tipo de preconceito, predisposição negativa, nada desse tipo, de forma alguma. Ao contrário: me sentei diante da tela com respeito pelo autor e pela obra, sabidamente importante.
E a verdade é que eu simplesmente não entendi o filme.
Não entendi o que são aqueles personagens, o que fazem na vida, o que pretendem. Não entendi qual era a relação entre Jandir e Leda, de onde eles se conheciam. Não consegui entender por que raios, depois de ser humilhada daquela forma abjeta, nojenta, na praia – “fotocurrasda”, como disse Salvyano Cavalcanti de Paiva em seu livro –, aquela mulher continuou saindo com os agressores, aparentemente até mesmo apaixonada por Jandir. Isso não faz sentido – na minha opinião, é claro.
Pode ser falha minha – falta de percepção, de sensibilidade. Sim, naturalmente pode ser isso.
Sim, a fotografia é extraordinária, há diversas tomadas de imensa beleza plástica. Sim, há uma óbvia influência de A Aventura, aquela maravilha, o primeiro dos filmes da trilogia da incomunicabilidade de Antonioni. Mas simplesmente não consegui compreender a história, os personagens.
Evidentemente, o filme tem importância, e grande, na História do cinema brasileiro. E a sequência de Norma Bengell nua na praia é sem dúvida algum um grande tour-de-force, uma coisa muito, muito impressionante. Antológica, histórica.
Em sua crítica, José Lino Grünemwald disse que a sequência em que o personagem de Daniel Filho roda na areia e a moça se vê tomada de amor por ele “soa falsa”. Na verdade, para mim, toda a trama e todos os personagens, tudo o filme, da primeira tomada até a última, soa falso.
Anotação em outubro de 2025
Os Cafajestes
De Ruy Guerra, Brasil, 1962.
Com Jece Valadão(Jandir),
Norma Bengell(Leda),
Daniel Filho (Vavá),
Hugo Carvana (fotógrafo), Lucy de Carvalho (Vilma), Glauce Rocha (a prostituta do início do filme), Germana Delamare, Fátima Sommer (a moça religiosa), Aline Silvia (a moça do Cadillac), Mariana Ferraz
Argumento e roteiro Ruy Guerra & Miguel Torres
Fotografia Tony Rabatoni
Montagem Nello Melli
Música Luiz Bonfá
Produção Magnus Filmes, Herbert Richers Produções Cinematográficas.
P&B, 100 min (1h40)
Fonte: 50 anos de filmes

