
Replicando o trajeto e trejeitos de Sartre e Simone de Beauvoir, que em 1960 fizeram uma visita a Fidel para apoiar, entusiasticamente, a revolução cubana, Pablo Iglesias, ex-líder do partido espanhol Podemos, mais de sessenta anos depois, surfando na crise insustentável da ditadura cubana, vai a Cuba em março deste ano não para ver as ruínas resultantes de um regime fracassado mas sim deitar falação nos salões do poder e ganhar visibilidade na mídia progressista.
Porém, o sádico oportunismo do político espanhol não passou despercebido para intelectuais cubanos comprometidos com a realidade do povo cubano por longo tempo submetido a um regime desumano.
O historiador Jorge L Leon fez uma dura crítica às ilusórias e insidiosas justificativas de Pablo Iglesias sobre uma revolução que só se mantém pela força, a opressão, medo e conluio das elites internacionais.
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Jorge L Leon
“Há frases que não resistem ao menor contato com a realidade. E depois há aquelas que, pelo seu nível de desconexão, não só irritam: revelam uma cegueira ideológica profunda. Quando Pablo Iglesias se pergunta com tom desafiador “por que eles temem a revolução? ”, não está levantando uma dúvida legítima, mas exibindo uma perigosa ignorância — ou pior ainda, uma cumplicidade consciente com o fracasso.
Porque a história não é um terreno de slogans, é um tribunal de fatos.
E nesse tribunal, a chamada “revolução” que Iglesias romantiza foi julgada com severidade vezes sem conta.
O caso cubano não é exceção: é uma sentença definitiva.
Após mais de seis décadas de experiência comunista, o balanço de Cuba é demolidor. Um país que já teve infraestrutura funcional, capacidade produtiva e economia em desenvolvimento foi reduzido à escassez crônica. Não se trata de propaganda: trata-se da impossibilidade quotidiana de aceder a bens básicos, desde alimentos até produtos tão elementares como o papel higiénico. A indústria nacional foi praticamente aniquilada; a agricultura, incapaz de sustentar o seu próprio povo; e a dependência do exterior é absoluta.
Chamam a isto “Triunfo da Revolução”?
A pergunta de Iglesias não é apenas desastrada: é ofensiva para milhões de cubanos que viveram — e sobrevivem — sob esse sistema. Temer a revolução? Não, o que existe é memória histórica.
Teme-se a miséria institucionalizada, a repressão do pensamento, o desmantelamento da dignidade humana em nome de uma utopia que nunca se materializa.
Porque o problema não é retórico, é estrutural. O comunismo, onde foi aplicado com rigor, demonstrou uma incapacidade sistemática de gerar riqueza, sustentar liberdades ou preservar a iniciativa individual.
O que produziu de forma notável é controlo, pobreza e dependência.
E é particularmente revelador que estas defesas da “revolução” vêm de figuras que nunca tiveram que viver as suas consequências. Do conforto de estúdios de televisão ou assentos políticos, constrói-se um discurso romântico que desmorona quando pisa a realidade de Havana, Caracas ou Manágua. É o comunismo de salão: uma ideologia que seduz em teoria, mas que devasta na prática.
Em Espanha, onde Iglesias tentou capitalizar esse discurso, o desencanto não foi casual.
Não é que “ninguém o queira” por capricho; é que as suas ideias colidem com uma sociedade que, com todos os seus problemas, conhece as vantagens da democracia, da alternância de poder e da economia aberta. Defender modelos fracassados não é rebeldia intelectual: é uma forma de regressão.
É, então, conveniente responder claramente: não se teme a revolução; o seu historial é rejeitado.
Não se combate uma ideia por preconceito, mas sim por provas acumuladas. E nessa evidência, Cuba se ergue como símbolo doloroso do que acontece quando a ideologia substitui a realidade.
O que é realmente alarmante não é que ainda existam discursos como o de Iglesias.
O preocupante é que eles ainda encontrem eco. Porque sempre que as lições da história são ignoradas, abre-se a porta para repeti-las.
E nesse sentido, a questão não deveria ser por que se teme a revolução, mas sim como ainda há aqueles que, perante ruínas evidentes, se atrevem a chamar-lhe esperança.”

