17 de abril de 2026
Adriano de Aquino

Esclerose Juvenil

‘Esclerose Juvenil’ é um fenômeno psíquico que teve seu ápice entre os jovens da geração dos anos 50/60. O fenômeno teve seu epicentro nas nações do ocidente e no período da Guerra Fria /Cuba/Vietnam.

Um grande número de jovens desbundados, woodstokianos, contra culturalistas, hippies, cheguevaristas, ninados em berço de ouro sob cuidados de mordomos bilingues e filhos de uma classe média ascendente, adeptos da ‘revolução permanente’, inebriados pela ideia de participação política e transgressão social, foram os principais vitimados por esse surto psíquico.

Agora, adentrando o segundo quarto do século XXI, pode-se perceber que ainda persiste entre os anciãos sequelados pela esclerose juvenil, a sensação de aqueles foram os ‘melhores anos do resto de suas vidas’ e fonte de inspiração para suas ideias e obras impregnadas de nostálgico revisionismo.

Um dos sintomas desse surto é o descarte radical da autocrítica, negação da dinâmica do tempo e das mudanças sociais e obsessão pelo retorno das suas crenças de outrora, a título de fazer justiça tardia forjando narrativas unilaterais, pretensamente históricas.

Para maior parte dos sequelados, a vitoriosa revolução cubana se converteu em uma ‘meca’ das ficções/facções revolucionárias socialistas igualitárias em beneficio do povo. Todavia, a revolução cubana se cristalizou como regime de partido único, se estende por mais de meio século e o sonho da ‘revolução permanente’ se dissolveu no ar. Anciões do século XXI, acometidos pela esclerose juvenil, insistem em manter suas crenças ativas, custe o que custar no plano social.

Hoje, circula nas redes sociais um exemplo clássico de ardilosa resiliência desconectada da realidade. Diante de mais uma crise social e protestos populares, Silvio Domínguez, músico, compositor, poeta e cantor cubano da safra de 1946, expoente da música cubana surgida no esteio revolucionário que juntamente com Pablo Milanés, Noel Nicola, Vicente Feliú e outros músicos, criaram o movimento da Nova Trova Cubana, é mais um caso clínico dos efeitos tardios da Esclerose Juvenil.

Postagens na rede revelam que, melindrado por mais uma gigantesca manifestação popular, o cantor pediu e recebeu do regime um fuzil AKM para defender a pátria(…) junto com o fuzil, também foi entregue ao músico um documento oficial que certifica a atribuição legal da arma.

Objetivamente, o músico está legalmente autorizado pelo regime para combater o povo que agora tomou as ruas do país em protesto contra o regime que lhe prometeu segurança, justiça e igualdade e entregou miséria, injustiça, medo e abandono.

Adriano de Aquino

Artista visual. Participou da exposição Opinião 65 MAM/RJ. Propostas 66 São Paulo, sala especial "Em Busca da Essência" Bienal de São Paulo e diversas exposições individuais no Brasil e no exterior. Foi diretor dos Museus da FUNARJ, Secretário de Estado de Cultura do Rio de Janeiro, diretor do Instituto Nacional de Artes Plásticas /FUNARTE e outras atividades de gestão pública em política cultural.

Artista visual. Participou da exposição Opinião 65 MAM/RJ. Propostas 66 São Paulo, sala especial "Em Busca da Essência" Bienal de São Paulo e diversas exposições individuais no Brasil e no exterior. Foi diretor dos Museus da FUNARJ, Secretário de Estado de Cultura do Rio de Janeiro, diretor do Instituto Nacional de Artes Plásticas /FUNARTE e outras atividades de gestão pública em política cultural.

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