
Quem disse que o Brasil não tem uma política externa de princípios? Temos, sim. O princípio fundamental, ao que tudo indica, é o da quinta série: “Se ele não me chamou para a festinha, eu também não empresto meu brinquedo”. 😂
Se o Barão do Rio Branco pudesse ver o que se tornou a política externa brasileira, ele provavelmente trocaria o Itamaraty por um grupo de discussão de rede social. A diplomacia, outrora pautada pela moderação e pelo interesse nacional, parece ter sido sequestrada por uma lógica de condomínio, onde a retaliação pessoal substituiu a estratégia de Estado.
A política externa costuma ser apresentada como um jogo sofisticado, repleto de tratados, negociações discretas e movimentos calculados. Mas, vez ou outra, ela desce do pedestal e se resolve em algo bem mais prosaico: um visto negado, um carimbo recusado e uma viagem que não acontece. Foi mais ou menos nesse território — entre o consulado e a ironia involuntária — que se instalou o mais recente episódio da relação entre Brasília e Washington.
O jornalista americano Darren Beattie, figura conhecida no ecossistema da direita trumpista. Beattie, que pretendia desembarcar no Brasil para uma visita de cortesia ao ex-presidente Jair Bolsonaro, viu seus planos serem frustrados pela barreira burocrática imposta pelo governo Lula. Mas o tempero dessa história não é o turismo; é o puro e simples suco de vingança.
A narrativa publicada — e que Beattie faz questão de inflamar — é que a dificuldade de sua entrada é o troco direto ao revés sofrido pelo ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha que teve seu visto americano cancelado pelas autoridades de Washington, um golpe de prestígio que deixou o Palácio do Planalto com os nervos à flor da pele e o orgulho ferido.
Mas há algo de curiosamente doméstico nesse tipo de disputa. Afinal, dificilmente alguém em Washington, D.C. deve ter convocado uma reunião emergencial por causa da impossibilidade de um jornalista visitar um ex-presidente brasileiro. O mundo continuou girando. Os mercados abriram normalmente e as embaixadas seguiram funcionando normalmente.
Entramos, assim, na era da Diplomacia do Espelho Retrovisor. Se o governo americano decide, sob seus próprios critérios de segurança ou conveniência política, que um ministro brasileiro não é bem-vindo, a resposta de Brasília não é uma nota técnica ou uma gestão discreta. É o uso do formulário de visto como um porrete ideológico. “Eles barram o nosso? Nós dificultamos o deles”.
Para Darren Beattie, o imbróglio é um presente caído do céu. Nada ajuda mais a construir a imagem de um “jornalista perseguido por regimes autoritários” do que ser impedido de entrar em um país para visitar um líder de oposição. O governo brasileiro, ao que parece, está oferecendo o palco, o microfone e o roteiro para que a direita americana pinte o Brasil como uma ditadura do hemisfério sul. As consequências possíveis todos conhecemos.
A exigência de visto de reciprocidade acaba servindo apenas como uma alfândega de conveniência. Se o turista é um surfista anônimo de San Diego, ele é apenas uma vítima da burocracia lulista. Mas se o visitante é um aliado de Trump querendo apertar a mão de Bolsonaro, ele vira o alvo perfeito para a desforra pelo visto perdido de Padilha.
É fascinante observar como a política externa brasileira se tornou pequena. Estamos trocando fluxos turísticos e relações institucionais por vitórias morais de curtíssimo prazo. O cancelamento do visto de um ministro é um incidente diplomático, mas usar a máquina do Estado para retaliar visitantes específicos ou dificultar a entrada de cidadãos por pirraça ideológica é, para dizer o mínimo, puro amadorismo.
A mensagem enviada ao mundo é clara: no Brasil de hoje, o carimbo no seu passaporte depende menos das leis de imigração e muito mais de quem você pretende visitar ou de qual autoridade brasileira foi barrada no aeroporto de Miami na semana passada. No caso específico de Darren Beattie, o resultado foi simples: a visita não aconteceu, o encontro com Jair Bolsonaro ficou no campo das intenções e a política internacional ganhou mais um episódio em que o drama se concentra não em tratados ou guerras, mas em algo muito mais mundano: um simples visto.
“O Brasil voltou!”, diz o slogan oficial. Só esqueceram de avisar que ele voltou para a época em que as disputas de Estado eram resolvidas no grito, na base da retaliação pessoal e com o fígado ocupando o lugar do cérebro.

